Acabou

O ex-presidente Lula superestimou a sua força e subestimou a gravidade da situação ao tentar uma manobra radical para tentar salvar, ao mesmo tempo, a própria pele e o mandato de Dilma Rousseff. Lula, que sempre achou que podia tudo, avaliou que assumiria, de fato, o lugar de Dilma, reverteria o jogo e voltaria ao poder, de direito, nos braços do povo. Deu tudo errado.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2016 | 03h00

Se pecou pela ousadia sem limite, a nomeação de Lula para um terceiro mandato indireto – ou “mandato tríplex”, na irreverência de Brasília - foi também de uma inoportunidade irritante: apenas três dias depois de milhões de pessoas saírem às ruas contra Lula, Dilma e PT. Elas gritaram “fora Lula” e Dilma fez o oposto, botou Lula para dentro do Planalto, desdenhando da Justiça e das investigações da Lava Jato.

Os manifestantes reagiram voltando às ruas, cercando o próprio Palácio do Planalto e reacendendo o temor de confrontos. O juiz Sérgio Moro não deixou por menos: retaliou liberando gravações comprometedoras de Lula e a conversa entre ele e Dilma em que falam do “termo de posse”, para ser usado “se necessário”. É considerado prova.

As gravações mostram como ele e Dilma arquitetaram a artimanha para fugir de Moro e cair no ambiente bem mais aconchegante do Supremo Tribunal Federal. Se isso não é tentativa de obstrução da Justiça, é o quê? O anúncio da volta de Lula era para ser um fato espetacular, mas foi um tiro n’água.

A hipótese de Lula nos braços do povo parece cada vez mais distante, lembrando a melancólica reação de Jânio Quadros quando desembarcou em São Paulo depois da renúncia. Olhou para um lado, olhou para o outro e indagou na sua solidão: “Cadê o povo?” Lula, como ele, pode não estar notando, ou acreditando, o quanto a sociedade lhe virou as costas.

A mirabolante nomeação de Lula foi recebida não só com fortes protestos nas ruas, mas resistência até mesmo dentro do governo. Enquanto o presidente da CUT alardeava que, com Lula, o governo “vai mudar radicalmente e dar uma guinada à esquerda” (populista e gastadora), o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, entrincheirava-se em defesa dos fundamentos econômicos e de uma política responsável.

A primeira ação do novo “superministro” Lula foi tentar dobrar o PMDB, enroscando-se com o já tão enroscado presidente do Senado, Renan Calheiros, e nomeando o peemedebista Mauro Lopes para a Aviação Civil quatro dias depois de a convenção nacional do PMDB proibir os membros do partido de aceitar cargos no governo. Foi uma provocação ostensiva, uma declaração de guerra contra o vice Michel Temer e a cúpula do fundamental PMDB.

Ou seja: ao renunciar na prática em favor de Lula, Dilma pôs uma pá de cal no seu mandato moribundo, irritou os manifestantes de domingo, cutucou as onças da Lava Jato com vara curta, abriu uma guerra com o PMDB, acendeu um sinal de alerta nos economistas e nas estatais e bancos públicos. E para quê? Foi tudo um tiro n’água, como já dito aqui, ou pior: um tiro no pé. Nunca o impeachment pareceu tão palpável quanto ontem à noite.

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