Abusos e violência ameaçam imprensa

Comitê de Proteção a Jornalistas divulga texto sobre riscos à liberdade de expressão

Gabriel Manzano, de O Estado de S. Paulo

14 de fevereiro de 2011 | 23h00

Em seis semanas de 2011, cincos jornalistas já foram assassinados, um deles na recente rebelião da Tunísia e outro dias depois, no Egito. Outros 145 estão presos, em todo o mundo. Por toda parte, a censura aperta o cerco contra repórteres. É com esse pano de fundo que o Comitê de Proteção dos Jornalistas, de Nova York, apresenta nesta terça, em São Paulo, o relatório Ataques à Imprensa em 2010 - que traz como um dos destaques a censura imposta pela Justiça do Distrito Federal ao Estado, hoje em seu 564.º dia.

 

"A imprensa do continente vive um momento preocupante", disse Carlos Lauria, coordenador do relatório sobre o continente, ao chegar ontem a São Paulo. "Primeiro, pela violência crescente com que atua o crime organizado, e o México de hoje é um exemplo extremo dos riscos que correm os repórteres", diz ele. "Outro problema são as decisões judiciais politizadas" - caso específico da censura imposta ao Estado. Em terceiro, ele menciona "os recursos de que se valem os governos, de forma arbitrária, em diferentes regiões, para impedir que jornalistas e fontes façam seu trabalho".

 

O evento começa às 9h30, no Blue Tree Jardins Capcana, nos Jardins, e foi promovido em conjunto pelo CPJ e pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Lauria, um argentino que vive em Nova York desde 1994, fará a exposição do capítulo sobre o continente. Em seguida, haverá comentários do presidente da Abraji, Fernando Rodrigues.

 

A censura sofrida pelo Estado, impedido de divulgar informações sobre irregularidades praticadas pelo empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), é a abertura e um dos episódios analisados detalhadamente no texto.

 

O capítulo sobre América Latina é apenas parte do levantamento global do Comitê, que tem mais de 400 páginas. Ele traz uma análise, caso a caso, das pressões sofridas pela imprensa em dez países, entre eles Brasil. "Países como México, Argentina, Honduras e Equador vivem momentos difíceis", destaca o coordenador. Numa segunda parte, o documento registra episódios contra jornalistas em outros nove países.

 

Unesco. No relatório global, que também está sendo divulgado, o presidente do Comitê, Joel Simon, faz uma forte cobrança à Unesco - o principal órgão das Nações Unidas dedicado à liberdade de imprensa - e à Organização dos Estados Americanos (OEA). "Haverá uma menção contra Unesco e OEA por seu papel débil no combate às arbitrariedades cometidas contra a imprensa no continente", adianta o coordenador do CPJ.

 

As razões para criticar a Unesco são conhecidas. Em 2010, ela pretendia dar um prêmio ao "presidente eterno" da Guiné Equatorial, Nguema Mbasogogo, um dos maiores inimigos da liberdade de imprensa do mundo. Mbasogogo, no poder há 30 anos, havia feito uma doação a um projeto científico em seu país. Ao longo de 2010,várias organizações tiveram de promover uma campanha mundial para que a Unesco desistisse da premiação. A OEA é cobrada por não se envolver de modo eficaz na luta contra abusos praticados contra jornalistas no continente americano.

 

Velho defensor da liberdade de imprensa na Argentina, Lauria observa, com alívio, que a batalha entre o governo Kirchner e os jornais El Clarin e La Nación perdeu um pouco o vigor, "a situação está mais descomprimida". "Havia uma confrontação que chegou em 2010 ao seu ponto culminante", disse. Sua expectativa é que a disputa pela empresa que controla o papel de imprensa na Argentina tenha uma saída melhor, daqui por diante.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.