Abril Vermelho: MST promove série de invasões no País

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) realizou nesta quarta-feira uma série de manifestações, marchas e invasões em todo o País, no que é marcado pelo grupo como o "Abril Vermelho". Duas fazendas foram invadidas em São Paulo, três, no Rio Grande do Sul, uma marcha foi realizada na Bahia e ocupações de outros grupos ocorreram em Recife.Invasões em São PauloCentro e cinqüenta integrantes do MST invadiram na manhã desta quarta-feira a fazenda Pendengo, em Castilho, na região Noroeste de São Paulo, divisa com Mato Grosso do Sul, e obrigaram os trabalhadores da propriedade a paralisarem todos os serviços do dia. Por volta das 6 horas da manhã, o grupo formado por sem-terra de quatro acampamentos da região, entrou na propriedade pela porteira principal. Em seguida, já dentro da fazenda, ocuparam uma casa que estava era preparada para receber uma família de trabalhadores. Depois, armaram barracos na frente da sede da fazenda.A fazenda, de 4,3 mil hectares, pertence aos herdeiros de Serafim Rodrigues, que deveriam entrar ainda nesta terça-feira com pedido de reintegração na Justiça. A propriedade foi decretada improdutiva, mas sua desapropriação está sendo discutida na Justiça. O Incra depositou R$ 27,2 milhões para reivindicar a imissão de posse. Os representantes do MST alegam que a demora no julgamento da ação atrasa o processo de reforma agrária na região e que só irão sair da área depois que o Incra e a Justiça Federal se manifestarem sobre a questão.Em Mirandópolis, outra fazenda invadida foi a São Lucas, onde cerca de 30 hectares de plantação de cana-de-açúcar foram destruídos durante a madrugada.Os sem-terra contaram com ajuda de agricultores de assentamentos de reforma agrária da região, que cederam os tratores usados para derrubar o canavial, plantado havia dez meses pela Companhia Agrícola da Mata, ligado ao Grupo Grendene, que monta uma usina de açúcar e álcool na região.Os sem-terra usaram os chamados arrastões (grandes pedaços de madeiras fixados na traseira dos tratores) para derrubar o canavial. A cana estava com 10 meses e tinha aproximadamente 2,5 metros de altura; eram mudas que seriam usadas no plantio de grandes lavouras para abastecer usinas de álcool. Por cerca de quatro horas, três tratores arrastaram as mudas de cana. Pela manhã, o canavial estava todo no chão. Os sem-terra, então, comemoram a destruição das mudas.Contra a monocultura"Fizemos o serviço, porque somos contra a monocultura e contra a tática dos fazendeiros de maquiar dados de produção para tentar receber indenizações acima dos valores reais das benfeitorias", disse Lourival Plácido de Paula, coordenador do MST.Segundo ele, as plantações na fazenda São Lucas deveriam ser proibidas porque a fazenda já foi desapropriada, mas os proprietários recorreram à Justiça e continuaram plantando para tentar receber valores maiores em futuras indenizações do governo.Segundo ele, o processo judicial está concluso desde agosto do ano passado, mas a Justiça Federal demora em julgá-lo, o que atrasa o processo de reforma agrária na região.De acordo com Paula, novas plantações de cana deverão ser derrubadas, porque causam a monocultura, acaba com pequenas propriedades e depreda o meio ambiente.Procurado, o advogado da Companhia da Mata, Dirceu Carreto, que deveria falar sobre o assunto não foi encontrado.Rio Grande do SulTrês fazendas foram invadidas também nesta quarta-feira pelo MST no Rio Grande do Sul, quando o grupo anunciou que "as mobilizações fazem parte de uma jornada nacional de luta pela reforma agrária" e pedindo assentamento para as 2,5 mil famílias acampadas à beira de estradas no Estado. Nas ações, os sem-terra portaram paus, foices, enxadas e pedaços de ferro. Não houve confrontos.Em Coqueiros do Sul, no norte do Rio Grande do Sul, cerca de 700 sem-terra ocuparam a sede da Fazenda Coqueiros às 5 horas da manhã. Os funcionários que dormiam no local tiveram tempo de sair. Os invasores mantiveram as casas e galpões, um caminhão e o depósito de combustíveis sob seu controle durante todo o dia, mas saíram pacificamente às 18h30min, quando estavam cercados pela Brigada Militar, que deslocou 400 homens para o local e ameaçava cumprir à força a determinação judicial que proíbe o MST de entrar na área. "Isso já virou rotina", queixou-se, entre irônico e amargurado, o proprietário Félix Guerra. É a oitava invasão que a propriedade rural de 7 mil hectares, produtora de soja, trigo e gado, sofre desde abril de 2004. Em Pedro Osório, no sul do Estado, outros 400 sem-terra invadiram a Estância Pântano, de 2 mil hectares, pertencente à família Eichinique Lopes, produtora de arroz e gado de corte. E em Nova Santa Rita, na região metropolitana de Porto Alegre, 700 pessoas ocuparam a Granja Nenê, área de 1,5 mil hectares de propriedade de Eneida Portinho, voltada à produção de arroz. Os proprietários pediram a reintegração de posse à Justiça. Além das invasões, o MST também organizou uma marcha em São Gabriel, no sudoeste do Rio Grande do Sul. Cerca de 350 pessoas caminharam até o centro da cidade para defender a desapropriação de 13,2 mil hectares da Fazenda Southall.Marcha na BahiaOs cerca de 5 mil integrantes do MST e do Movimento dos Trabalhadores Assentados, Acampados e Quilombolas (Ceta) da Bahia seguiram nesta quarta-feira por mais de 100 quilômetros uma marcha iniciada na segunda-feira em Feira de Santana e que deve ser concluída em Salvador, no próximo dia 16. Durante a tarde, os manifestantes montaram acampamento em uma fazenda na margem do km 555 da BR-324, município de Amélia Rodrigues, a cerca de 80 quilômetros da capital baiana, onde pernoitaram.De acordo com o líder do MST no Estado, Márcio Matos, à medida que a marcha avança, é mais notável o quanto os manifestantes estão descontentes com o tratamento dado pelo governo do Estado às cerca de 25 mil famílias que, hoje, moram em acampamentos de movimentos sociais espalhados pela Bahia. Está marcado um encontro entre as lideranças do MST e o governador do Estado, Jaques Wagner (PT), no dia 17, em Salvador. A data marca o aniversário de 11 anos do episódio conhecido como Massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, quando 19 trabalhadores rurais morreram em conflito com a polícia.Incra ocupado em RecifeA sede do Incra no Recife se manteve fechada pelo segundo dia nesta quarta-feira ocupada por integrantes do Movimento Terra Trabalho e Liberdade (MTL), que impediram a entrada da superintendente do órgão Maria de Oliveira e dos funcionários. No final da tarde a juíza da 21. Vara Justiça Federal, Joana Carolina Lins Pereira, concedeu reintegração de posse do prédio, acatando ação impetrada pela superintendente. No despacho, a juíza autoriza, se necessário, a requisição de força policial para o cumprimento da ordem. E impõe multa diária de R$ 1 mil se a determinação não for obedecida.A expectativa é de que a reintegração seja efetuada na manhã de quinta-feira. As lideranças do MTL já haviam afirmado, durante o dia, que iriam resistir ao despejo. Chico Siqueira, Elder Ogliari, Tiago Décimo e Angela Lacerda

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