Abraço entre FHC e Itamar exigiu articulação nos bastidores

Não foi casual o clima de cordialidade que marcou o encontro do presidente Fernando Henrique Cardoso com seu antecessor Itamar Franco no seminário Brasil 2003-2006 no Rio de Janeiro, que também comemorou os oito anos de Plano Real. Foi preciso muita articulação e uma boa dose da chamada boa intriga até o abraço final que selou a reconciliação dos dois, depois de seis anos de críticas públicas de Itamar a Fernando Henrique. A personagem principal dos bastidores desta pacificação é o presidente da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG). O deputado tucano começou a trabalhar a reconciliação há cerca de três anos e meio, logo depois do tumulto inicial da gestão Itamar à frente do governo de Minas Gerais, com a declaração da moratória estadual. Diante do isolamento do governador e dos prejuízos financeiros amargados pelo Estado e pelo Brasil, por conta da desconfiança dos investidores, Aécio não teve dúvidas: bateu à porta do gabinete presidencial e do ministro da Fazenda, com a pregação de que divergências pessoais não podem implicar em ruptura das relações entre Minas e a União. "Tínhamos que negociar a superação da moratória", recorda Aécio. A bem sucedida reabertura do diálogo entre a Secretaria do Tesouro e a Secretaria de Fazenda de Minas, produziu o levantamento da moratória que regularizou os repasses de verbas federais para o Estado e deu o primeiro fôlego a Minas. Começou aí a relação de confiança entre Aécio e Itamar que, a despeito das divergências políticas com o avô Tancredo Neves, sempre manteve uma convivência muito carinhosa com o pai do presidente da Câmara, Aécio Cunha. "Sempre fiz a boa intriga porque sempre achei importante para o presidente Fernando Henrique encerrar seu governo bem com quem o lançou e sempre senti que era algo que os dois gostariam de superar", conta Aécio, que aproveitou todas as oportunidades que teve para sugerir ao presidente que fizesse um gesto de aproximação. Da mesma forma, nas conversas com Itamar, sempre procurou salientar da gratidão e do respeito do presidente pelo governador. "O que eu fiz foi ajudar para que problemas circunstanciais não prevalecessem sobre aquilo que ambos têm de mais forte: compromisso com a causa pública".Quem é amigo de ambos e companha a relação entre os dois nos últimos dez anos diz que a mágoa foi muito grande porque a relação deles era forte demais. É o caso do deputado Custódio de Mattos (PSDB-MG), o tucano que comandou a prefeitura de Juiz de Fora, terra de Itamar, no período em que este presidia o País. Ele vem notando a desaceleração do conflito pessoal entre os dois sobretudo nos últimos três meses e acredita que as razões disto vão além da atuação dele próprio e de Aécio, como bombeiros. Custódio acredita que o conflito pessoal pôde ser superado porque o conflito de projeto já não existe mais. O raciocínio, neste caso, é o de que o processo de divergências desencadeou-se porque Itamar também tinha idéia de ser presidente outra vez. Com Fernando Henrique em fim de mandato e Itamar também, o conflito político de curto prazo foi superado e começou a prevalecer o passado sobre o futuro. "O que fica, agora, é um passado de admiração e excelente relação pessoal. Ambos estão mais preocupados com a história do que com o futuro, o que abriu espaço para o ajuste de contas positivo".

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