Abismo entre brancos e negros não diminuiu, diz Ipea

O "Brasil branco" é 2,5 vezes mais rico do que o "Brasil pobre". A conclusão é de pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgada no Rio e que investigou a desigualdade racial no País. Os dados divulgados no estudo, que revelam profundas diferenças nas condições sócio-econômicas entre as duas raças, levaram o presidente do Ipea, Roberto Martins, a afirmar que "a pobreza neste País tem cor e essa cor é negra".A pesquisa revela que as condições de vida do Brasil melhoraram nos anos 90, mas as diferenças entre brancos e negros não diminuíram. A renda média mensal da população branca é R$ 400 e a dos negros, R$ 170. No início da década, a pobreza do País estava no patamar de 40% da população brasileira. De 1995 até o final da década de 90, caiu para 34%. Mas a participação da população negra (pardos e pretos) na pobreza permaneceu bem superior à dos brancos. No total da população indigente em 99, por exemplo, 68,85% eram negros e 30,73% brancos.O volume de negros pobres é sempre maior apesar de a população negra do País ser menor (45,33%) do que a branca (54,02%). No que diz respeito à fatia dos pobres, confirmando a hierarquia, os negros têm participação de 63,63% no total, enquanto os brancos são 35,95%.Martins afirmou que esses dados são claros na demonstração de que são necessárias "políticas específicas" para a fatia negra da população para "promover a igualdade" entre brancos e negros. Ele destacou os números referentes à educação, apontando que a taxa de analfabetismo entre os brancos com mais de 15 anos atinge 8,3%, enquanto para os negros é de 19,8%.O abismo de oportunidades entre negros e brancos no acesso ao ensino superior, por exemplo - no ano de 99, 89% dos brancos entre 18 e 25 anos não haviam ingressado na universidade, ante 98% dos negros -, acaba gerando distorções entre as duas raças no mercado de trabalho. Martins ressaltou que, no final da década passada, 7,5% dos homens brancos estavam desempregados, enquanto 11% dos negros estavam sem ocupação.As distorções no acesso à educação acabam tendo reflexo também no rendimento médio, sendo que, segundo o presidente do Ipea, os brancos recebem em média salários que são o dobro dos pagos aos negros. Ele avaliou que essa diferença não é apenas um preconceito de cor de quem contrata, mas de "exclusões anteriores acumuladas ao longo das gerações", sendo a principal delas os diferentes níveis educacionais."Nascer negro no Brasil está relacionado a uma maior probabilidade de crescer pobre", conclui a pesquisa do Ipea. Os resultados do trabalho foram apresentados durante a Conferência Nacional Contra o Racismo e a Intolerância, que será encerrada hoje no Rio. O evento reúne negros, índios, judeus e homossexuais em palestras e debates no campus da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

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