Abin monitora ''aliança'' entre MST e Paraguai para rever acordo de Itaipu

Governo teme que presidente do país vizinho articule apoio dos sem-terra para mudar tratado binacional

Tânia Monteiro e Roldão Arruda, O Estadao de S.Paulo

08 de janeiro de 2009 | 00h00

Por determinação do Palácio do Planalto, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) deverá monitorar a aproximação que estaria ocorrendo entre o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e o governo do presidente Fernando Lugo, do Paraguai. A preocupação do governo é com a tentativa de cooptação dos sem-terra pelos paraguaios, com o objetivo de apoiar mudanças no Tratado de Itaipu, aumentando o valor da energia paga pelo Brasil, além de renegociar a dívida. Essas mudanças estavam entre as principais promessas de campanha de Lugo nas eleições presidenciais do ano passado.O MST está distribuindo entre acampados e assentados material com informações sobre a polêmica, chamando a atenção de seus militantes para os direitos do país vizinho. "No caso da usina de Itaipu, é uma questão de defesa dos princípio da soberania nacional e popular sobre os recursos naturais", disse ontem ao Estado um dos principais líderes nacionais da organização, Roberto Baggio. "A Eletrobrás paga uma bagatela para eles (paraguaios) e quem está ganhando mesmo são os grandes grupos econômicos, estrangeiros, que compram barato essa energia para ter lucro."O governo brasileiro vê como um problema a eventual atuação do presidente paraguaio em sintonia com os sem-terra. Primeiro, porque seria uma interferência indesejada em assuntos internos, considerando que as autoridades brasileiras já disseram que o tratado é inegociável. E, segundo, porque ocorreria às vésperas do aniversário de 25 anos do MST, que deverá ser comemorado com manifestações de protesto, ocupações de terra e marchas por todo o País.Acredita-se que a questão do pleito paraguaio será incluída nas manifestações, difíceis de serem monitoradas - devido ao fato de os sem-terra não terem um controle centralizado, cabendo a cada Estado definir o que fazer.AFINIDADESDe acordo com reportagem publicada ontem pelo jornal Valor, Lugo teria enviado representantes de seu governo para manter contato com movimentos sociais brasileiros e disseminar entre eles o que seriam as verdadeiras razões dos paraguaios - que estariam sendo omitidas pelos meios oficiais.Lugo, que é bispo e partidário da Teologia da Libertação, sempre viu com simpatia as ações do MST - que nasceu apoiado por bispos brasileiros ligados à mesma linha teológica.No Planalto, o temor de alguma possível ação do MST é acentuado pelo fato de seus militantes serem bastante organizados nos Estados do Sul, nas proximidade da área de Itaipu.Além disso, a Via Campesina, organização internacional da qual o MST faz parte, tem ligações com a Mesa de Coordenação Nacional das Organizações Campesinas, que é o movimento dos sem-terra paraguaios.Segundo Baggio, que também é um dos representantes no Brasil da organização internacional Via Campesina, o MST sempre se interessou pelos problemas dos povos da América Latina. "Vamos continuar informando a nossa base e nos somar com outros movimentos sociais brasileiros."SOBERANIAPela ótica do governo brasileiro, tanto o governo paraguaio quanto os movimentos sociais estariam tentando politizar um assunto que é técnico e jurídico, legitimamente desenhado pelos dois governos, não importando que isso tenha acontecido durante governos ditatoriais - o tratado, de 1973, foi assinado pelos então presidentes Emílio Médici e Alfredo Stroessner.Por enquanto, o governo não vai se pronunciar sobre as movimentações. As autoridades pretendem apenas acompanhar as mobilizações e declarações sobre o debate, que pode acabar adquirindo tonalidades de nacionalistas contra antinacionalistas. Isso, no entanto, não preocupa o MST. "Nada é mais nacionalista do que defender a soberania de um povo sobre os seus recursos naturais", afirmou Baggio.

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