Abin diz que Exército tem aparelho que realiza grampo

Em contra-ataque a Jobim, integrantes da agência, de vários níveis, relatam compra de arsenal de arapongas

Tânia Monteiro, de O Estado de S. Paulo,

04 de setembro de 2008 | 08h17

A crise do grampo abriu a caixa-preta dos serviços secretos do governo. Integrantes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) afirmaram ontem que o Exército possui parte do arsenal de aparelhos eletrônicos utilizado pelos agentes. Foi um contra-ataque ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, que durante a reunião de coordenação política do governo acusou a Abin de possuir equipamentos que permitem a realização de grampos. Integrantes da agência, de vários níveis hierárquicos, apresentaram o seguinte argumento: se a Abin tem equipamentos que permitem que se façam grampos, o Exército também tem e poderia da mesma forma realizar escutas.       Veja Também: CPI dos Grampos convoca Jobim e diretores da Abin e PF Entenda as acusações de envolvimento da Abin com grampos  Veja como foi o depoimento do diretor à CPI  Diretor afastado admite que 'maleta' da Abin pode fazer grampo Especial explica a Operação Satiagraha  Multimídia: As prisões de Daniel Dantas  Lula manda investigar compra de 'maleta de grampo' na Abin Crise acirra disputa entre Polícia Federal e Abin A Abin lembra que seus aparelhos foram adquiridos "no rastro" dos comprados pelo Exército. Há quem seja ainda mais direto, informando que o lote de compras foi o mesmo, aproveitando idênticas condições de preços. O Exército, no entanto, não informa que tipo de equipamentos possui e alega, em nota, que se trata de "assunto sensível e estratégico do ponto de vista militar" e, por isso, "se reserva ao direito de não detalhar sua dotação e características deste tipo de material".O comandante do Exército, general Enzo Peri, declarou ontem que "os equipamentos foram comprados pelo Exército para o GSI (Gabinete de Segurança Internacional) fazer varreduras". Lembrou ainda que a Força mandou para o Palácio do Planalto, a pedido do próprio GSI, três militares para avaliar o que os aparelhos adquiridos pela Abin são capazes de fazer. O trabalho de avaliação da capacidade dos equipamentos começou na terça-feira, mas ainda não tem data para ser concluído.   O Ministério da Defesa, por sua vez, acha que o foco da questão está sendo desviado. O que tem de ser discutido, alega, não é quem tem ou não equipamento que permita a interceptação de telefones ou escuta de ambiente, mas quem fez o grampo divulgado pela revista Veja - o qual revela uma conversa entre o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, e o senador Demóstenes Torres (DEM-TO).   Na reunião de coordenação política do governo, na segunda-feira, Jobim surpreendeu a todos os participantes, principalmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao apresentar uma lista com os nomes dos equipamentos que a Abin comprou. E, conforme informação obtida no Comando do Exército, a relação mostra que alguns equipamentos podem ser usados para fazer escutas.     A posição do ministro da Defesa causou mal-estar e irritou profundamente o ministro-chefe do GSI, general Jorge Armando Félix. Na avaliação de Félix, Jobim agiu de "má-fé", pois não revelou que o Exército possuía os mesmos equipamentos. A informação do ministro da Defesa foi decisiva para que Lula decidisse pelo afastamento de toda a cúpula da Abin.

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