Abdenur reforça críticas à condução ideológica da diplomacia

O embaixador Roberto Abdenur reforçou nesta terça-feira as críticas contra a condução ideológica da política externa brasileira e ampliou seus ataques a tópicos da agenda internacional caros ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Aposentado no final de janeiro, depois de 44 anos de atividade diplomática, Abdenur mostrou-se suficiente liberado para afirmar que o modelo político do presidente Hugo Chávez fará da Venezuela uma "ditadura". Abdenur defendeu ainda que o Brasil teve a oportunidade de concluir a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e destacou que a Cooperação Sul-Sul tem ocorrido em detrimento das relações do Brasil com os Estados Unidos. As divergências e frustrações do veterano diplomata, expostas de forma restrita à revista Veja no início do mês, desta vez foram expandidas ao longo das seis horas de uma audiência pública na Comissão de Política Exterior e Defesa Nacional do Senado Federal. Abdenur fora convocado pela Comissão a pedido dos senadores tucanos Eduardo Azeredo (MG) e Flexa Ribeiro (PA), justamente pelo impacto de suas declarações à publicação. Ao terminar sua exposição, os senadores mostravam-se convencidos de que terão de interferir mais diretamente na formulação da política externa e inclusive de chamar os embaixadores em serviço no exterior para prestar contas de suas ações. Abdenur deixou claro que não tinha a pretensão de "demolir ou denegrir" - nem o Itamaraty nem qualquer diplomata em particular - e que falava "em nome de amigos e colegas de geração". Mas, em seu depoimento, reforçou que houve uma fracassada tentativa de doutrinação da diplomacia, por meio da obrigatoriedade da leitura de títulos com clara mensagem "nacional-desenvolvimentista e antiimperialista" pelo secretário-geral das Relações Exteriores, embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. Reiterou ainda sua acusação de que o engajamento ideológico ganhou peso nas promoções da carreira diplomática nos últimos anos. Essa ousadia que quase lhe custou o constrangimento de ter de apontar os nomes em uma audiência secreta, sugerida pelo presidente da Comissão, senador Heráclito Fortes (PFL-PI), que acabou não aprovada. Apoio a iniciativas Assim como criticou, Abdenur mencionou seu apoio a várias iniciativas da política externa do presidente Lula. Dentre elas, a formação do G-4, grupo no qual Brasil, Alemanha, Japão e Índia agem conjuntamente em favor da conversão de todos os quatro como membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Também mostrou-se favorável à aproximação do Brasil com a África, os países Árabes e outras regiões do mundo. Elogiou a condução das negociações da Rodada Doha, a presença militar brasileira no Haiti e a formação da parceria estratégica entre o Brasil, a Índia e a África do Sul (Ibas). Em uma série de perguntas do senador Pedro Simon (PMDB-RS), Abdenur não pôde escapar de reconhecer que sua remoção da embaixada do Brasil em Washington, "48 horas depois da reeleição do presidente Lula", o frustrou. Conforme explicou, quando convidado para o posto por Amorim, foi informado que o ocuparia até o final do governo Lula - o que significaria sua saída de Washington nos primeiros meses de 2007. Relação com Amorim Quando questionado sobre sua amizade de longos anos com a Amorim, não deixou de enfatizar que mesmo relações antigas como essa podem sofrer "alterações"."A minha remoção não correspondeu à minha relação com Celso Amorim nem com a minha posição de veterano na carreira. Não houve a consideração que eu merecia", afirmou. "Essas circunstâncias me tocaram. Eu não sou um robô." Entretanto, o embaixador mostrou-se cuidadoso para não deixar a sua mágoa contaminar suas críticas sobre a atual condução do Itamaraty e as prioridades da política externa. Também demonstrou cautela e respeito ao mencionar o presidente Lula, de quem disse ter recebido a missão "cumprida" de aprofundar as relações com os Estados Unidos, e afirmou que o assessor Marco Aurélio Garcia sempre foi um "interlocutor positivo e receptivo" sobre as relações do Brasil com os EUA. Abdenur contou que ingressou na carreira diplomática motivado justamente pelo ideário desenvolvimentista e antiamericano que prevaleceu nos anos 60. Lembrou que fazia parte de um grupo de jovens diplomatas próximos ao chanceler Saraiva Guerreiro, a quem o então embaixador dos Estados Unidos, Anthony Motley, chamava de "barbudinhos terceiro-mundistas e antiamericanos". Nesse grupo estavam também Amorim e Pinheiro Guimarães (embora sem barba). Diante da presença do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), que participou do seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 1969, afirmou que apoiara a iniciativa. "Hoje, que sou embaixador, já não apóio mais", brincou.

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