Abandono por aliados determinou o desfecho de Palocci

Em vez de apoio, ex-ministro viu PT engalfinhado, PDT apoiando CPI e o PR cobrando Planalto

Rosa Costa, Andrea Jubé e Denise Madueño

07 de junho de 2011 | 23h25

BRASÍLIA - Menos de 24 horas depois da decisão do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, de arquivar as representações da oposição, o ex-chefe da Casa Civil Antonio Palocci assistiu de seu gabinete, no Palácio do Planalto, a um teatro político desalentador.

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Em vez de uma base unida em torno de sua permanência no cargo, Palocci viu um PT engalfinhado, um PDT engrossando a lista de assinaturas para abrir uma CPI e o PR dizendo que o Planalto precisava "fazer uma cesariana para tirar o rei da barriga".

 

Pior: em outro cochilo da base aliada, ele quase voltou a ser convocado para depor em outra comissão do Congresso - o Planalto precisou contar com o socorro do senador Fernando Collor (PTB-AL) para evitá-la.

 

A temperatura da fogueira política aumentou quando a oposição, com a ajuda da base governista, começou a engordar a lista de apoio à CPI do Palocci, pulando de 18 para 23 nomes. Com mais dois senadores certos do apoio - Pedro Simon (PMDB-RS) e Itamar Franco (PPS-MG) - a oposição estava convicta de que chegaria às 25 assinaturas, a apenas duas do mínimo necessário, 27.

 

Os primeiros sintomas explícitos do desarranjo da base apareceram com o comportamento das bancadas petistas. Enquanto os deputados apoiaram a permanência de Palocci no cargo, os senadores, sob a liderança informal e confusa de Marta Suplicy (SP), acabaram, além de retirar apoio ao ministro, criando uma guerra política.

 

Marta acendeu o pavio da disputa interna ao propor, durante almoço semanal dos senadores petistas, uma nota de apoio a Palocci. A maioria rejeitou a ideia e disse que a função do partido era fortalecer o governo Dilma. Walter Pinheiro (BA), Delcídio Amaral (MS) e Eduardo Suplicy (SP) não estavam na reunião. O líder do partido, Humberto Costa (PE), irritou-se quando Marta, em minoria, apelou para a presença do presidente do PT, Rui Falcão, acreditando que ele poderia impor a decisão à bancada.

 

"Isso foi iniciativa de gente que está querendo ser mais realista do que o rei ou protagonista dos fatos", reagiu Delcídio.

 

Na Câmara, a bancada petista chegou a negociar o apoio a Palocci, mas desde que não acumulasse a articulação política do governo, como vinha fazendo. Nesse novo formato, a presidente Dilma Rousseff trocaria o ministro das Relações Institucionais, Luiz Sérgio, cuja atuação tem se mostrado deficiente. Foi aberta até negociação para que Palocci fosse ao Congresso falar sobre seu enriquecimento, mas como convidado, e não como convocado.

 

Operação Collor. No rastro do racha no Senado, o governo quase foi surpreendido pela oposição. O líder da minoria na Câmara, Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG), apresentou um requerimento de convocação na Comissão Mista de Controle de Atividades de Inteligência, que fazia uma sessão em uma das salas do Senado. Quando os governistas perceberam, o deputado Carlos Alberto Lereia (PSDB-GO) já se preparava para votar o requerimento.

 

Enquanto o governo convocava todos os parlamentares, Collor salvava Palocci. Ele pediu a palavra e disse que a comissão não tinha autorização parlamentar para funcionar, por ainda não ter sido constituída. O arrastado tempo da fala de Collor permitiu que a base de governo chegasse à sessão, que se realizava de forma emergencial na Comissão de Assuntos Sociais do Senado. Uma vez em maioria, o governo convenceu Lereia a não levar adiante a tentativa de votar o requerimento e a sessão foi encerrada.

 

Rei na barriga. Inconformados com a decisão do procurador-geral da República, os senadores Cristovam Buarque (DF) e Pedro Taques (MT), ambos do PDT, assinaram o requerimento pedindo a criação de CPI para investigar o ministro. Cristovam lembrou que há dez dias chegou a dizer que não assinaria pedido de investigação antes de conhecer o parecer do procurador. "Mas não houve parecer. Houve uma simples decisão de arquivamento. Continuo sem saber quem pagou ao ministro Palocci e o que ele fez", afirmou o senador do DF.

 

No Twitter, Taques também justificou: "Sou do PDT, tenho orgulho disso. Mas ser da coalizão não significa submissão. Não posso fugir do meu passado. Meu patrimônio é minha coerência".

 

O líder do PR no Senado, Magno Malta (ES), subiu à tribuna para reclamar da articulação política do Planalto. Numa crítica indireta a Palocci, Malta afirmou que a articulação política do governo precisava "fazer uma cesariana por dia para tirar o rei da barriga". Malta havia tentado diversas audiências com o chefe da Casa Civil, sem nunca obter um retorno.

 

Numa ofensiva ainda mais dura, o senador Clésio Andrade (PR/MG) - que também não conseguia ser recebido pelo chefe da Casa Civil - assinou o requerimento da CPI. Palocci ligou para ele e Clésio retirou a assinatura. Diante desse clima, Palocci chegou ao fim do expediente fazendo o que a base dividida recomendava: pedir demissão.

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