Abalado por gesto em NY, chanceler pede que diplomatas não se contaminem por ‘ruídos’

Abalado por gesto em NY, chanceler pede que diplomatas não se contaminem por ‘ruídos’

Carlos França foi filmado fazendo um gesto a críticos do governo, interpretado como a ‘arminha’, símbolo dos apoiadores do presidente

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2021 | 20h41

BRASÍLIA – Em busca de apoio, o chanceler Carlos França pediu que diplomatas do Itamaraty “não se deixem contaminar por ruídos”, na sua primeira manifestação pública após voltar da Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) e de reuniões nos Estados Unidos. O ministro das Relações Exteriores sofreu um abalo em seu prestígio durante a passagem da comitiva presidencial por Nova York, na semana passada, quando foi filmado fazendo um gesto a críticos do governo, interpretado como a “arminha” símbolo dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro

A interlocutores, França disse que apenas apontava para uma pessoa, de dentro da van da comitiva, apesar de a posição de seus dedos se assemelhar ao gestual comumente usado para simbolizar uma arma de fogo.

“Todo chanceler em sua época teve que lidar com críticas justas ou injustas. Todos que estivemos nessa cadeira, eu mesmo, seremos julgados pelo legado que deixaremos. Quero pedir aos colegas diplomatas que não nos deixemos contaminar por esses ruídos, que não nos tirem da mente o sentido da missão dessa Casa, que é defender os interesses do Brasil no exterior”, disse Carlos França, nesta quinta-feira, dia 30. “Sem querer alimentar controvérsias ou debates estéreis, eu sempre me pautei pela discrição. Quero que o protagonista não seja o chanceler, mas seja a diplomacia brasileira. Fui a Nova York não para fazer gestos, foi para fazer diplomacia, entendida como método de política externa.”

França também disse que ministros em sua posição têm de lidar com falhos alheios a si, injustiças e inverdades. Ele pediu que seus colegas não percam “o sentido de missão”.

Diplomatas que auxiliam diretamente o ministro dizem que ele se abalou com a repercussão negativa do episódio e chegou a se isolar, ainda em Nova York, no hotel Intercontinental Barclay para uma caminhada reflexiva. 

A impressão no Itamaraty é que os episódios controversos protagonizados pela comitiva presidencial, entre eles as ofensas do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, a manifestantes, ao lado de França no ônibus, ofuscaram o trabalho de bastidor. O ministro da Saúde mostrou o dedo médio a manifestantes enfaticamente, e no dia seguinte, segundo integrantes da comitiva, se vangloriou da repercussão.

Até então, Carlos França havia emplacado uma imagem de moderado, além da cordialidade de quem foi talhado no cerimonial do Palácio do Planalto. Ele evitava exposição e entrevistas, recebendo ataques da ala ideológica do governo que, desalojada do Itamaraty, passou a acusá-lo de tucano. Nos bastidores, tentava reconstruir pontes com o Congresso Nacional e restabelecer posições clássicas da diplomacia. Mas também pagou a fatura pelo discurso inaugural de Bolsonaro repleto de recados a seus apoiadores e isolacionista em questões sanitárias relacionadas à covid-19.

Embora tenha pensamento mais conservador, ele conseguira se distanciar do radicalismo exposto por Ernesto Araújo, seu antecessor, que fazia questão de expor afinidades ideológicas com o presidente. A passagem pela capital norte-americana, porém, abalou a percepção sobre ele entre diplomatas da ativa e aposentados, bem como entre os acadêmicos da área.

Auxiliares de França dizem que o ministro sabe que, na atual função, terá de fazer alguns sinais e se dobrar à política, mas ainda calcula quais. Um deles foi subir no carro de som dos protestos de viés autoritário no 7 de Setembro, estimulado por Bolsonaro, fator que despertou desconfiança.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.