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José Roberto de Toledo
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A volta dos profissionais

Há uma tendência de crescimento moderado de buscas no Google Brasil pelos termos “manifestação”, “impeachment” e “protesto”. Mas nada parecido com as vésperas da grande manifestação de um ano atrás, ainda. Já a procura pela expressão “vem pra rua”, nas suas várias grafias, continua onde sempre esteve nesses 12 meses: tão baixa que mal se vê. Os focos maiores de movimentação nas redes estão em São Paulo, Distrito Federal e Rio de Janeiro.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2016 | 06h04

As buscas por essas palavras no Google foram um bom termômetro das manifestações em 2015. O pico virtual de março foi três vezes maior do que o de agosto, e seis vezes superior ao de dezembro. Nas ruas, a proporção de manifestantes foi similar. É cedo, porém, para prever qual será o tamanho dos protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff no domingo. O crescimento costuma ser abrupto, se intensifica nos últimos dias antes do evento.

Seja como for, há diferenças fundamentais deste protesto em relação aos anteriores. Pela primeira vez, os partidos de oposição estão francamente engajados na sua organização. Se, há um ano, limitaram-se a olhar da janela com uma camisa amarela, desta vez caciques do PSDB estão convocando não só militantes, mas eleitores de modo geral, valendo-se de meios eletrônicos.

Autoridades tucanas prometeram segurança aos que pretendem protestar mas, eventualmente, estão temerosos de conflitos violentos com governistas e petistas, que, em algumas cidades, também ensaiaram ir para as ruas no mesmo dia. Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin proibiu demonstrações a favor de Dilma e de Lula na Avenida Paulista, pois é lá que os oposicionistas marcaram de se reunir já faz meses.

O trem pró-impeachment espichou, e os movimentos exóticos que deram a cara aos protestos enquanto os partidos de oposição não queriam correr o risco de se expor vão ser empurrados para os vagões de trás. Acabaram-se as preliminares: seja um sucesso, um fracasso ou meio a meio, a locomotiva da manifestação de domingo são os partidos, e os maquinistas, os políticos profissionais.

O PSDB e seus caciques pretendem capitalizar ao máximo os eventos de domingo. E não é só para apressar a desestabilização do governo e tentar precipitar a saída de Dilma do poder. O objetivo é usar as manifestações para apresentarem-se como a saída no fim do túnel. Não são os únicos, porém.

Na véspera, o PMDB também fará seu principal movimento para começar a sair de Dilma para entrar na história – e, se der certo, voltar ao governo com a faca e o queijo na mão. A reeleição do recém-calado Michel Temer como presidente do partido deve catalisar os divididos peemedebistas em torno de duas palavras: independência e união. Independência para votar como cada deputado e senador quiser (sem obediência ao líder do governo) e união para se contrapor aos polarizados PT e PSDB.

É, obviamente, uma aposta na transição pelo impeachment da presidente e só dela. Os peemedebistas sabem que precisam se antecipar ao julgamento da chapa que elegeu Dilma e Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral, ou correm o risco de se verem cassados junto com os petistas. Mas, para mudar a contabilidade na Câmara e no Senado e garantir os votos necessários para apear Dilma, também Temer e companhia dependem da pressão das ruas.

Assim, a manifestação de domingo é fundamental para os planos tanto do PSDB quanto do PMDB de voltar ao centro do poder. Se for contabilizada aos milhões, tucanos e peemedebistas terão andado muitas casas rumo ao mesmo objetivo. Uma contagem em centenas de milhares será uma vitória, mas não definitiva. Qualquer outra unidade de medida equivalerá a um retrocesso.

Tudo isso, é claro, se as delações de Delcídio Amaral não forem premiadas nem forem corroboradas por outras provas. Ou haverá protestos contra os protestantes.

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