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A virtude por linhas tortas

A crise política brasileira alcançou tal grau de intensidade que chega-se à virtude pela via torta da luta de aliados em busca de mais espaço de poder. Não há outra síntese para a proposta do PMDB de reduzir ministérios no início de um mandato presidencial em que está representado na vice-presidência da República.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2015 | 02h05

A proposta expõe a inutilidade da presidente Dilma em condicionar a reforma ministerial à aprovação do ajuste fiscal, pois desdenha do único trunfo do governo para domar a rebeldia de sua base - os cargos de primeiro e segundo escalões, interrompendo o ciclo de barganha definido pelo ex-ministro Cid Gomes como um achaque do Legislativo.

Pois o PMDB, dois dias após a demissão de Cid, informa que está disposto a "largar o osso", como sugeriu o ex-ministro na sessão em que, ao invés da retratação, agravou a acusação que dera origem à sua convocação.

Não há bravata, mas calculismo na proposta do PMDB. É talvez, até aqui, o sinal mais contundente de que o partido não aposta mais na recuperação política do governo Dilma e fez a opção pela sua sobrevivência aumentando a artilharia contra o PT - seu único e verdadeiro alvo.

O partido sugere ter desistido de conquistar espaço político proporcional à sua dimensão na aliança com o governo e diversifica a estratégia da batalha: ao invés da ocupação dos alvos em posse do adversário, decide pela sua destruição como forma de reduzir seu poder de fogo.

Tem-se, então, o combate ao aparelhamento do Estado pelo PT, não por virtude, mas por uma guerra de extermínio entre facções de um mesmo condomínio que já não reconhece o síndico e se entrega à disputa territorial.

O pano de fundo são as eleições municipais do próximo ano, em que estará em jogo a preservação da capilaridade do PMDB, através do número de prefeituras - o dobro ou próximo disso em relação ao PT. Se não podem dividir os instrumentos dessa batalha eleitoral, o PMDB prefere retirá-los do adversário.

A eliminação de duas dúzias de ministérios, como propõe o partido do vice-presidente Michel Temer, sob sua inspiração e com seu aval, se traduz por uma pressão final sobre a presidente Dilma para que se distancie do PT e se aproxime do PMDB.

A provocação é diabólica, pois tira da presidente a iniciativa do confronto com seu partido, ao colocar a proposta como uma condição de governabilidade e, de outro lado, torna a recusa insustentável por se tratar de cortar na própria carne para poder cobrar apoio público ao programa recessivo.

Silêncio eloquente. A decisão do ex-dirigente da Petrobrás Renato Duque de não responder às perguntas de parlamentares na CPI que investiga a empresa frustra a expectativa geral. Abre espaço à leitura de que poderá, em algum momento, optar pela delação premiada. O silêncio de Duque, justificado com a frase de que "a hora é de calar", revela precaução que admite a hipótese de acordo. A postura do ex-dirigente da estatal indica que sua convocação foi precipitada, pois o alcança na fase de orientação de defesa.Para o PT, aumenta a angústia porque Duque, a exemplo do tesoureiro João Vaccari, é essencial à investigação, ambos com potencial para aproximar o escândalo do governo Lula e de provar o elo entre os desvios e as campanhas presidenciais do PT.

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