NILTON FUKUDA/ESTADÃO
NILTON FUKUDA/ESTADÃO

A vida (e as brigas) pós-denúncias

Amigos e familiares mantêm embate na web

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2017 | 05h00

O acordo tácito de não tocar no assunto durante a happy hour costuma ser quebrado depois da segunda cerveja. No grupo de WhatsApp da família, o equilíbrio se esvai quando aquele tio distante decide enviar um meme sobre o tema que até então vinha sendo evitado. O número de amigos no Facebook cai exponencialmente toda vez que é postado algo sobre “aquilo”.

“Aquilo” pode ser “política”, “delação da Odebrecht”, “Lula”, “Dilma”, “Temer”, “greve geral”, “reforma trabalhista”, “petista”, “tucano” e “Bolsonaro”, entre outros. Depois do cansaço pós-impeachment, as faíscas reacenderam o fogo da polarização em meio à onda de denúncias, depoimentos e protestos. Não raro, o debate tem se transformado em brigas irreconciliáveis mesmo entre aqueles que, em tese, deveriam se amar.

Quem vê os amigos de infância Fred Coutinho e Marcos Almeida, ambos de 34 anos, dividindo uma cerveja no fim de tarde paulistano não imagina que aquilo representa um recomeço. “Eu cheguei a bloqueá-lo no Facebook”, diz Almeida. “Eu não aguentei ler as opiniões dele sobre política.” Já Coutinho considerou a atitude normal. “As diferenças políticas estão acirradas. Acho normal que isso aconteça, mas, no fim, o diálogo e o respeito acabam vencendo.”

Muitos imaginaram que depois das delações dos executivos da Odebrecht as certezas político-partidárias seriam expostas com menos paixão, uma vez que políticos dos principais partidos foram citados. “Não foi isso o que aconteceu. Cada um quer expor apenas o trecho da delação que confirma sua simpatia ideológica ou política”, diz o analista de sistemas Marcelo Faria, de 22 anos. 

Com os desdobramentos da Lava Jato, as brigas de família ganharam um novo ringue. A professora Marcela, de 36 anos (nome fictício), conta que só percebeu que havia sido bloqueada nas redes sociais pelos primos depois de não ter sido convidada para a festa de 5 anos do sobrinho.

“O embate político chegou a esse nível. Meus primos acharam que eu não seria uma boa presença na festinha só porque penso política de um jeito diferente do deles. Nós brigamos, sim, nas redes sociais, mas não imaginei que chegaria a ponto de afetar uma relação familiar”, diz ela.

Para o psicólogo e professor da PUC-SP Hélio Deliberador, a sociedade está refletindo o debate que acontece entre os próprios políticos. “A polarização ocupou a vida das pessoas. Nossas relações não estão sendo marcadas pelo diálogo, mas pela desqualificação do outro. A política faz parte da vida civilizada, mas ambientes como as redes sociais criaram condições para visões mais rasteiras e excludentes ganharem protagonismo. As pessoas não estão habilitadas para o debate.”

Tudo o que sabemos sobre:
FacebookWhatsAppLulaOdebrecht

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.