A vida como ela é

O visitante desembarca hoje no Rio de Janeiro, pega um táxi no Aeroporto Antonio Carlos Jobim e, antes de chegar à Linha Vermelha em direção à zona sul, já recebe do motorista o panorama: "Aqui agora não tem mais mais, a polícia entra no morro e é na bala que conversa com o traficante".O que será isso, um surto de beligerância à deriva, a reação de um espectador impactado com operações de invasão de morros com número elevado de mortes, a visão de um entusiasta da política de enfrentamento adotada pelo governo nas áreas de domínio do tráfico, ou a opinião de um residente que se sente de fato mais seguro na cidade?Provavelmente de tudo um pouco. Na opinião do governador Sérgio Cabral Filho é, sobretudo, a tradução da absoluta exasperação das pessoas com a barbárie patrocinada pelo narcotráfico e do apoio da maioria ao uso da violência do Estado na defesa do estado da plenitude de direitos.A Ordem dos Advogados protesta contra as "matanças", as ONGs vêem perigo nas ações de "extermínio", muitos especialistas criticam as operações, consideram-nas malfeitas, arriscadas para a população, os tradicionais "organizadores da paz" nas passeatas não gostam do que estão vendo, mas Cabral está convicto de que, ou é assim, ou o Rio pode dar adeus à esperança de ver restabelecida a ordem pública."Sem ela, não haverá qualidade de vida, crescimento econômico, organização urbana e o Estado será vencido nesse combate", diz, comparando a questão da segurança à estabilidade econômica e à responsabilidade fiscal."Esses preceitos sofreram resistência dos que se consideravam progressistas e hoje são valores incorporados pela sociedade, sem os quais o Brasil continuaria refém do atraso. São pressupostos desprovidos de ideologia, não são de direita nem se esquerda." Sérgio Cabral sabe que se arrisca a ser apontado como conservador e truculento, mas se considera preparado para o embate entre os conceitos do enfrentamento direto e a ausência de uma política ativa que chama genericamente de "populismo" podendo assumir também a feição de "conivência" ou "leniência".Recuar, já avisa que não vai. "Acordos e pactos nem pensar", embora não descarte a hipótese de haver reação violenta da criminalidade. "É preciso enfrentar a vida como ela é. Para a maioria da população é duríssima."Na opinião do governador, há um equívoco de origem na discussão sobre segurança pública."O processo de redemocratização criou no Brasil, e particularmente no Rio de Janeiro, uma falsa dicotomia entre a defesa da ordem pública e a defesa dos direitos humanos, como se não fossem, ambos, parte do mesmo processo civilizatório. A ditadura acabou desmoralizando a autoridade, que passou a ser sinônimo de truculência." Para se enfrentar marginais, diz, "além das ações de inteligência e de ocupação do Estado nas áreas que se tornaram fortalezas do tráfico, é preciso o combate direto, pois são altamente armados e ainda manipulam as comunidades e a opinião pública".Dá um exemplo: na operação na Favela da Coréia, a polícia apreendeu a contabilidade do tráfico e descobriu que as "tias", senhoras tidas como respeitáveis na comunidade, estavam na folha de pagamento dos traficantes para prestar serviços como dar depoimentos em delegacias atestando a condição de "trabalhadores" dos traficantes e denunciar à imprensa abuso nas ações policiais."Isso mostra o grau de contaminação e domínio do tráfico" que, acrescenta, atinge o contingente policial. "O combate direto com o bandido é a preliminar, mas trabalhamos também com o expurgo dos corruptos, com ações de intolerância a quaisquer infrações da cidade: transporte ilegal, prostituição, invasões de sem-teto, tudo."Sem ajuda federal, entretanto, Cabral não acredita que dê conta. Insistirá na colaboração do Exército e já nesta quarta-feira vai aproveitar um encontro com o ministro da Defesa, Nelson Jobim, para retomar o assunto. PesquisaLogo após a invasão do Complexo do Alemão, em julho, quando morreram 19 pessoas, segundo a polícia, todos bandidos (há controvérsia), o Palácio Guanabara encomendou pesquisa e obteve o seguinte resultado: 83% foram a favor e 11% contra a operação. Destes, 87% disseram-se favoráveis à extensão das ações a outras favelas, 73% consideraram as invasões eficazes; 56% apoiariam e 37% não concordariam se a polícia agisse perto de suas casas e pondo em risco a segurança de suas famílias; 62% acham necessários os confrontos mesmo ao custo da morte de inocentes (34% não apóiam, nesta hipótese) e 60% não acham que bandidos "executados sem julgamento" seja um atentado aos direitos humanos, embora 34% considerem sim uma agressão injustificada.O intuito foi medir o grau de saturação dos habitantes dos bolsões controlados pelo narcotráfico e, pelos números, constata-se o óbvio: há um clamor por direito à vida e à liberdade.

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