A Venezuela contraria os interesses do Brasil?

Debate SIM Geraldo Cavagnari * Para o professor e pesquisador Geraldo Cavagnari, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, se esforça para ser o contraponto ao Brasil, usando países como Bolívia, Equador e até a Argentina, na disputa pela liderança na região. Em entrevista ao repórter Moacir Assunção, ele disse que o País mostrou fraqueza no episódio da Petrobrás na Bolívia e isso encorajou Chávez a se aventurar em desafios. No caso do satélite, o Brasil deve, na sua opinião, buscar apoio dos andinos - principalmente Chile, Colômbia e Peru - para neutralizar pressões da Venezuela. O senhor acha que a Venezuela representa uma ameaça ao Brasil? Sim, embora o Brasil não tenha nenhuma disputa militar com ela. Os contenciosos da Venezuela são com a Colômbia, por conta do apoio de Chávez às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), e com a Guiana, este motivado por disputa de território. Chávez sempre terá uma posição contrária à do Brasil, embora não passe por sua cabeça uma ação militar. No entanto, ele faz pipocarem contenciosos contra o Brasil, como no caso da Bolívia e agora no Equador. E a Argentina, como fica nisso? Chávez tem comprado títulos da Argentina, o que ajuda na estabilidade da economia daquele país. Não é que o presidente Néstor Kirchner seja um aliado, mas o venezuelano pode obter a neutralidade argentina em sua hostilidade ao Brasil. Os aliados de Chávez são a Bolívia e o Equador. Mas haveria risco de confronto armado da Venezuela com o Brasil? Chávez sabe que não tem como se opor militarmente ao Brasil, mesmo com tropas bem armadas e adestradas. O País tem quadros militares de grande qualidade e oficiais de alto nível. O que ele pode fazer é promover pequenas provocações em áreas de fronteira. A sua força vem do episódio da Bolívia, quando o governo se mostrou leniente na defesa dos interesses nacionais. No caso do satélite, como o Brasil deveria agir? Buscar um acordo com outros países andinos. O Brasil é muito mais confiável para eles do que a Venezuela. O Chile tem interesse de se aliar ao País por causa do contencioso com a Argentina. O Peru não tem interesse em ficar espremido entre Equador e Venezuela. A situação é favorável ao Brasil. O importante é evitar que dê certo a manobra da Venezuela para nos prejudicar, indispondo os países. * Geraldo Cavagnari coordena o Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) NÃO Paulo Edgar Resende* O professor Paulo Edgar Resende, da PUC, classifica como "uma causa perdida" qualquer tentativa da Venezuela de Chávez de se opor ao Brasil, bem mais poderoso em todos os sentidos. Ele acredita que a diplomacia brasileira tem mostrado habilidade para dialogar com a Venezuela, a Bolívia e até mesmo com Cuba, evitando choques desnecessários e cedendo em alguns momentos, como no caso da disputa pelas refinarias da Petrobrás na Bolívia. Na avaliação de Resende, o Brasil deveria aproveitar o momento da disputa pelo satélite geoestacionário para promover uma integração maior ainda com seus vizinhos, principalmente os amazônicos. Não haveria uma disputa pela liderança sul-americana da Venezuela com o Brasil? Isso estaria provocando atritos entre os países? Não creio. Esta é uma avaliação sob a ótica da segurança, que respeito, mas da qual discordo. O Brasil se encontra numa posição de visibilidade, como um global player e global trader; é líder no grupo G-20, candidato a integrante do G-7, por conta do seu Produto Interno Bruto (PIB) e por sua extensão territorial e sua população, e está no Bric (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China). O mundo respeita o País, assim como seus vizinhos. O Brasil agiu bem no caso da desapropriação das refinarias da Petrobrás pelo governo boliviano? O governo brasileiro foi extremamente hábil nesse caso. Se o Brasil quer ter algum protagonismo na região, tem que ceder em algum momento, respeitando as economias mais débeis, como as da Bolívia e do Paraguai. Não se pode enxergar a questão só pelo aspecto jurídico, mas também pelo estratégico. Hoje, a expectativa da Bolívia é que a Petrobrás volte a investir lá e as relações do País com a América do Sul nunca estiveram tão boas como agora, apesar de algumas divergências pontuais. De que forma o Brasil poderia agir na questão do satélite e da disputa com os países andinos? É uma boa ocasião para estreitar nossas relações com os vizinhos amazônicos e dar um passo à frente na integração continental. A Amazônia está presente em vários países e devemos evitar a unilateralidade nessa área. O senhor acha que a Venezuela deve fazer parte do Mercosul? Sem dúvida, até porque há uma cláusula na adesão que prevê o incentivo à democracia em todos os países-membros. Os EUA vêem o Brasil como garantia de que o populismo chavista não se radicalize. * Paulo Edgar Resende é coordenador do Núcleo de Estudos Estratégicos da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo

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