A velha política viva em Murici

Família de Renan se perpetua no poder em cidade alagoana

RICARDO BRANDT, ENVIADO ESPECIAL / MURICI (AL), O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2014 | 02h01

Na sexta-feira da Semana Santa, o prefeito de Murici, Remi Calheiros (PMDB), distribuiu 20 toneladas de peixe aos pobres. Uma tradição criada pelo patriarca dos Calheiros, o "major" Olavo, em 1980 - ano em que o clã assumiu a prefeitura pela primeira vez.

Berço do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), a cidade de 26 mil moradores é exemplo vivo da política praticada por sua família há mais de três décadas. O clã - sustentado pelo senador - dá emprego, comida, água, transporte e moradia para famílias carentes de Murici. Só na festança de doação de peixe foram 5 mil cadastrados.

O nome de Renan não aparecerá nas urnas no dia 5 - seu mandato de senador é de oito anos e vai até 2016. Mas o resultado da eleição será decisivo para o peemedebista se consolidar em 2015 como nome poderoso da política nacional. Ele pode comandar, simultaneamente, o terceiro posto na hierarquia da República (presidência do Senado), a prefeitura de Murici (há 16 anos com os Calheiros) e o governo de Alagoas. Com chances de vencer no 1.º turno a eleição de governador, o herdeiro político do senador, Renan Filho (PMDB), aposta no discurso do "novo". A aliados, Renan tem dito que pretende fazer do filho, que foi prefeito de Murici, uma "nova liderança política" do Nordeste, embora as práticas adotadas ali sejam as mesmas há anos.

Em Murici, no fim do ano, o prefeito distribui cestas básicas a famílias cadastradas. Quem comanda o cadastro é a primeira-dama e secretária de Assistência Social, Soraya Calheiros, cunhada de Renan. Só 10% dos moradores de Murici têm emprego formal registrado - a prefeitura é hoje a maior empregadora, depois da falência da maioria das usinas de cana. "Não tem emprego. Eu procuro, mas não existe", disse Nubia Rafaela, de 31 anos.

'Bênção'. Toda terça-feira de manhã, a avenida em frente à sede da Associação dos Muricienses Ativos pelo Desenvolvimento Organizado e Social (Amados) fica congestionada de gente em busca de comida. "Eles dão verdura, fruta, é uma bênção", disse Maria das Dores, de 62 anos.

A Amados é controlada pela ex-vice-prefeita na gestão Renan Filho (2005-2008), Rita Tenório, mulher do secretário de Indústria e Comércio da prefeitura, o ex-prefeito Glauber Tenório. Parte da entidade é sustentada por recursos federais da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Convênios. Desde 1996, Murici recebeu R$ 40 milhões do governo federal por meio de convênios. Parte desses recursos banca, direta e indiretamente, as práticas assistencialistas que garantem aos Calheiros o comando ininterrupto na prefeitura.

Levantamento do Estado mostra que, no papel, Murici ganhou merenda de qualidade, unidades de telecentro para informática e matadouro público. Mas nada funciona. De 2007 a 2010, a cidade recebeu R$ 600 mil e R$ 800 mil para construção de um matadouro público. A cidade não tem um e a carne que vai ao mercado fica exposta às moscas, sem refrigeração. Parte do dinheiro, R$ 780 mil, foi sacado de uma só vez, no fim de 2010, pela prefeitura. A reportagem constatou que a obra do novo matadouro nunca existiu.

O Ministério Público também denunciou a prefeitura por ter recebido verbas para merenda escolar e ter sumido com parte do dinheiro.

Mesmo com 30% de analfabetos, há desperdício de recursos públicos. A cidade recebeu verbas federais para a construção de telecentros. Eles foram erguidos e, logo depois, fechados. A reportagem esteve nos dois e encontrou portões com cadeados, sinais de abandono e salas vazias.

A família Calheiros foi flagrada por órgãos federais de fiscalização desviando recursos e fazendo uso eleitoral no caso do programa de assistência aos atingidos pela enchente de 2010. O Ministério Público Estadual disse que os R$ 780 milhões enviados para Alagoas foram alvo de irregularidades.

Procurado no Paço Municipal, o prefeito Remi Calheiros não estava. Na casa da matriarca Ivanilda, uma extensão da prefeitura, tudo fechado. É que toda quinzena de setembro, desde que o velho Olavo assumiu Murici, a família (incluindo o prefeito) segue numa caravana de 15 ônibus para levar as famílias cadastradas à festa de Padre Cícero, em Juazeiro do Norte (CE). Viajaram na quinta-feira e voltam terça. Tudo pago pelo clã e seus aliados.


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Herdeiro é apresentado como 'novo'

O presidente do Senado, Renan Calheiros, chegou a colocar seu nome para a disputa estadual em Alagoas, mas decidiu lançar seu filho, o deputado federal Renan Filho, ex-prefeito de Murici, após pesquisas apontares rejeição a "velhos políticos".

O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2014 | 02h01

Renan Filho vestiu a camisa para tentar personificar a figura do "novo político", uma estratégia criada por marqueteiros que não cabe no histórico familiar da família Calheiros. Renan Filho também abriu o bolso para bancar essa tática. À Justiça Eleitoral, o PMDB declarou que vai gastar até R$ 90 milhões na campanha do candidato.

Ostentação. Nas ruas de Maceió e de três outras cidades do interior visitadas pelo Estado, a campanha de Renan Filho é ostensiva. Há placas, bonecos, paredes pintadas e muitos carros de som espalhados. O pai, no entanto, tem evitado aparições ao lado do filho.

Citado em esquema de propina na Petrobrás pelo ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa em delação premiada, Renan teme que isso prejudique o filho e o discurso do "novo político" diante de seu adversário direto Benedito de Lira (PP), o Biu de Lira.

Eleito deputado federal em 2010, Renan Filho usa o prestígio do pai para fazer campanha em Maceió. A reportagem acompanhou duas caravanas em bairros da periferia da cidade. A militância paga, que serve para fazer barulho, balançar bandeiras e entoar jingles de campanha, chega com horas de antecedência, rigorosamente instruída para dar ares de naturalidade à claque.

Enquanto um locutor narra os passos do candidato, Renan Filho, acompanhado do cinegrafista da campanha, anda rapidamente como se estivesse com pressa, distribuindo abraços, beijos e posando para fotos. Essa é a segunda vez que um Calheiros tenta o governo de Alagoas. Em 1990, Renan saiu candidato com o apoio do então presidente, Fernando Collor. Este ano, Collor está de volta ao grupo de Renan. É ele quem faz dobradinha em Alagoas com Renan Filho. / R.B.

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Prefeitura está nas mãos do clã há 16 anos

Há 16 anos ininterruptos, os Calheiros comandam a prefeitura de Murici. Um domínio político que começou a ser construído em 1978, quando o presidente do Senado, Renan Calheiros, foi deputado pela primeira vez. Dois anos depois, ele elegeria o pai, Olavo Novais Calheiros, prefeito de Murici. Depois dele, a prefeitura passou pelas mãos de dois aliados e, em 1996, voltou a ter na placa do gabinete o sobrenome da família.

O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2014 | 02h01

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