A velha lenda, nas bandeiras e no peito dos participantes do Fórum

As camisetas dos participantes do Fórum Social Mundial constituem um rico mostruário das propostas, críticas e idéias do milhares que estão no encontro. Numa delas, o primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, é chamado de "monstro". Em outra, o rosto de Osama bin Laden aparece ao lado do carimbo Made in USA. Elas repudiam a Alca, apóiam Cuba, relembram o sonho de um mundo sem fronteiras cantado por John Lennon. Alardeiam partidos políticos, imploram liberdade para pessoas encarceradas por questões ideológicas, divulgam organizações não-governamentais, atacam os Estados Unidos, pedem paz, louvam o amor. No meio desse festival, porém, chama a atenção a figura de Che Guevara. Nenhuma outra se repete tanto sobre os corpos quanto a dele. Entre os camelôs de camisetas, cartazes e adesivos espalhados na área do encontro, quase todos têm à venda alguma coisa com a imagem dele, freqüentemente acompanhada de uma frase, um pensamento. Os mais comuns são: "Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás" e "Se você treme de indignação perante uma injustiça cometida a qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, então somos companheiros." A figura quase mítica do jovem médico argentino que deixou a pátria para se engajar em lutas revolucionárias pelo continente, nos anos 50 e 60, até ser morto na Bolívia, em outubro de 1967, empolga jovens e adultos, em especial os mais envolvidos como movimentos sociais. Como Volnei Scherer, de 38 anos, militante gaúcho do Movimento dos Sem-Terra, que leva o rosto do guerrilheiro estampado no peito. "O grande exemplo dele é a solidariedade", explica. "Não lutou por interesses próprios, egoístas, mas por toda a América Latina." O altruísmo de Guevara é sempre lembrado, ao mesmo tempo que se fazem ressalvas, pelo menos por aqui, à proposta dele de se recorrer à luta armada para mudar o mundo. "Ele pode ter cometido erros, mas o que mais impressiona é o fato de ter se entregado à busca de seus ideais" diz o desempregado argentino Roberto Perez, de 46 anos, do Movimiento Piquetero Barrios de Pie. Velho amigo - Alguns gostam dele mesmo sem conhecer direito sua história. Uma garota, ao ver o repórter fazendo perguntas sobre Che, indagou, entusiasmada: "Ele vem aqui?" Outros o conhecem há muito tempo. Numa das vielas que ligam os prédios da imponente e moderna Pontifícia Universidade Católica, onde se realiza a maioria dos encontros, chamava a atenção ontem pela manhã a figura de um senhor alto e de cabelos branquíssimos, levando o guerrilheiro numa camiseta rubra. Contou que tem 62 anos, é professor, milita no Partido Comunista da África do Sul e admira Che desde quando ainda estava vivo: "Ele sempre animou nossas lutas." O retrato mais comum de Che é com a boina, cabelos longos e rebeldes e o olhar perdido. Como se mirasse um esperançoso futuro. O artista plástico baiano Irley de Jesus Leal, de 32 anos, trouxe para o fórum uma versão pessoal do ícone: os traços do rosto ficaram ainda mais suaves, mais jovens, mais próximos de algumas versões da face de Jesus Cristo (raríssima por aqui). Che é o preferido da galeria de rostos que Irley já pintou Ghandi, John Lennon, entre outros. O próximo deve ser o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Ele é a cara do Brasil. Se conseguir, vou entregar pessoalmente a ele o meu trabalho." Um novo ícone? Veja o especial sobre os Fóruns de Davos e Porto Alegre

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