Antonio Augusto/secom/TSE
Antonio Augusto/secom/TSE

A um ano das eleições, crise econômica e saúde dominam debate político

Desemprego, inflação e pandemia dão o tom no discurso de presidenciáveis em meio ao desgaste do governo Bolsonaro

Marcelo de Moraes, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2021 | 05h00

Em 2018, Jair Bolsonaro e uma leva de novatos na política conseguiu triunfar nas urnas com discurso de outsiders. Com fortes críticas às práticas políticas tradicionais, como o toma lá dá cá de emendas e cargos, e aos casos de corrupção, deram o tom da campanha e se elegeram. Três anos depois, esse cenário já não existe mais. Com o governo Bolsonaro fortemente desgastado pelo negacionismo no combate à pandemia do coronavírus, pelos problemas na economia e por aderir ao mesmo fisiologismo que criticara, o jogo político mudou completamente.

A exatamente um ano das próximas eleições, que acontecerão no dia 2 de outubro, as principais discussões políticas centram suas atenções na pandemia, que causou quase 600 mil mortes, e nos problemas da economia, como a disparada da inflação, o desemprego e o aumento da extrema pobreza. E, numa antecipação da campanha eleitoral, esses temas já dominam os discursos dos principais candidatos que botaram seu bloco na rua com um ano de antecedência.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem se aproveitado dessa mudança de vento na política. Líder nas pesquisas, tem o desafio de provar que o sentimento antipetista do eleitoral não será mais uma força poderosa na disputa de 2022. Como efeito dos escândalos do mensalão e dos desvios bilionários da Petrobras, os petistas acumularam um grande desgaste, que chegou ao seu auge com o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016. Esse problema causou a derrota dos principais candidatos do partido e ajudaram a impulsionar a chamada nova política.

Preso em 2018 pela acusação de envolvimento em corrupção, Lula não pôde concorrer ao Planalto e viu Fernando Haddad ser batido por Bolsonaro. Dois anos depois, nas eleições municipais, o bolsonarismo foi derrotado nas principais capitais justamente pelo desgaste do presidente causado pelo negacionismo no combate à pandemia e pela adesão às práticas políticas que condenara. Mas nem por isso o petismo se reabilitou. Pelo contrário. O partido não conseguiu eleger nenhum prefeito de capital.

Agora, os erros cometidos pelo governo Bolsonaro abriram um campo para que Lula – que teve seus direitos políticos recuperados – voltasse a atrair o interesse do eleitorado. E ele tem criticado o governo duramente especialmente em relação à volta da pobreza, do alto desemprego e da inflação.

Outros candidatos também têm investido nesses temas. O governador de São Paulo, João Doria, quer capitalizar seu esforço para garantir as vacinas da Coronavac e já é chamado em seu jingle de campanha de “João vacinador”. Além disso, tem procurado mostrar que enquanto a economia nacional vem capengando, em São Paulo a situação é outra.

“O Estado de São Paulo gerou um em cada três empregos do Brasil em 2021. Com 22% da população do País, São Paulo foi responsável por 32% dos novos empregos gerados este ano”, cita o tucano, se referindo aos dados do Caged.

Se Doria critica o governo de Bolsonaro, também admite que vai priorizar o discurso antipetista na sua campanha, retomando a associação de Lula com a corrupção.

Embora reconheça todos esses problemas, outro pré-candidato do PSDB, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, tem uma visão diferente. Ele acha que depois de todos os problemas causados pela pandemia e com a crise econômica só piorando, a prioridade precisa ser a reconstrução do País e não mais briga entre os candidatos.

“Neste 2 de outubro estamos a um ano da eleição. E não dá para ficar esse ano inteiro brigando. O impeachment resolve os problemas de hoje, mas não resolve os problemas de amanhã se continuarmos em conflito. Ninguém vai ganhar se o vencedor não for o Brasil. Por isso, neste tempo que temos pela frente, é preciso construir uma alternativa real, concreta e coletiva de união e paz para o País. E esses 365 dias são mais do que suficientes para isso”, disse Leite ao Estadão.

Apesar de todo o desgaste acumulado, Bolsonaro ainda tem conservado uma base fiel em torno de 20% que pode assegurar sua passagem para o segundo turno. Mas interlocutores do presidente reconhecem que a disparada dos preços disparando e o aumento da pobreza reduzem demais suas chances de reeleição. Por isso, garantir a redução de preços dos combustíveis e do gás, entre outros, passou a ser prioridade no Planalto. Mas os bolsonaristas também admitem a preocupação com a perspectiva de baixo crescimento econômico para este ano e para 2022. Havia a expectativa de retomada da economia justamente no ano eleitoral, mas esse cenário se desfez. O plano do governo, agora, é garantir que Bolsonaro chegue na disputa eleitoral sem se inviabilizar por conta da rejeição e reassuma, num eventual segundo turno, o papel de candidato anti-Lula.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.