A última entrevista de José Alencar ao 'Estado'

'Esse é o problema. Deus nos livre do desemprego', afirmou o ex-vice presidente em 2009

Leonêncio Nossa, de O Estado de S. Paulo

29 de março de 2011 | 15h28

Em 2009, José Alencar deu sua última entrevista ao Estado. A matéria foi publicada em  6 de janeiro. Leia a seguir:

 

O vice-presidente José Alencar, de 77 anos, acha cedo demais para falar de 2010, frisando que existem apenas "conjecturas", mas não tem dúvida sobre o perfil do sucessor ideal para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva: "Precisa de alguém que esteja presente nas questões sociais."

 

Ao falar dos seus problemas de saúde, assim como da turbulência mundial, ele se mostra otimista. "Vamos vencer", afirmou Alencar, referindo-se à crise financeira, antes de começar esta entrevista, no gabinete do anexo do Palácio do Planalto. Um temor, porém, ele não esconde: "O grande problema da crise é o desemprego. Deus nos livre do desemprego!" A seguir, os principais trechos da entrevista:

 

Qual é a receita para vencer?

Tenho muita fé em Deus. Tem uma verdadeira corrente no Brasil inteiro, que tem me ajudado muito. As pessoas me mandam cartas, novenas, remédios, orientações, orações. Eu não tenho medo da morte. O homem tem de ter medo é de perder a honorabilidade, especialmente na vida pública. O homem que não perde a honorabilidade não morre. Não morre para os filhos, os ancestrais, os amigos, os patrícios. Agora, quando o camarada faz coisa errada, em vida pode se considerar morto, porque ninguém quer saber de se aproximar dele. Tem a vida e a morte. Quando Deus quer levar, leva, independentemente do câncer. O câncer é um problema terrível e nós estamos obedecendo a orientações médicas, estamos fazendo tratamento. Não parei de trabalhar, pois talvez seja outra razão pela qual eu esteja suportando tudo isso.

 

Essa fé vem da infância?

Mamãe e papai tiveram 15 filhos. Eles tinham muita fé. A nossa principal oração é a que Jesus nos ensinou, o Pai-Nosso. Nem sei se sou forte, nunca me preocupei com isso. É que normalmente saio do hospital e encontro jornalistas me esperando. Eu dou entrevista, dou a notícia por inteiro. Nunca omiti nada, mesmo porque o homem público não é dono de si. Ele tem de ser transparente mesmo. Provavelmente isso tenha criado esse mito de força. Não sou mais forte que ninguém.

 

O presidente Lula lançou a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, como candidata para 2010. Qual é o nome preferido do senhor?

Está muito cedo para falarmos em sucessão. Mas Dilma Rousseff é uma brasileira que reúne condições notáveis para exercer a responsabilidade na sucessão. Tenho por ela a maior admiração e respeito e posso afirmar que se trata de uma mulher preparada para o exercício da importante missão.

 

O sr. é candidato a que em 2010?

Não posso dizer nada por enquanto. Só que muitas lideranças de Minas querem que eu me candidate. O mais adequado para mim seria um cargo no Senado, mas isso se o povo quiser. Não tenho mais condições, pela idade, de disputar um cargo no Executivo.

 

O que um candidato precisa para ter apoio do senhor?

Se não temos candidato, não podemos falar por conjecturas. Vamos ver quais são os candidatos. É claro que o Brasil precisa de alguém que esteja presente nas questões sociais. O Brasil é um país de renda maldistribuída. Na habitação, por exemplo, há muito o que fazer, há muita gente vivendo em favelas onde não há condições de vida. E outra coisa que precisa ser resolvida é o saneamento.

 

O governo deve priorizar habitação e saneamento até 2010?

São temas importantes, assim como a infraestrutura, a energia e o transporte. Juscelino disputou a eleição presidencial de 1955 usando o binômio "energia e transporte". Isso é atual. O Brasil é um país eminentemente rodoviário, por força de circunstâncias. E as distâncias exigem outros meios de transporte, como hidrovias, ferrovias, aeroportos e portos para a navegação de cabotagem. A União, os Estados e os municípios devem atacar o problema em conjunto.

 

Como avalia o regime militar?

A história tem de ser trazida. Há momentos em que você tem de justificar certos acontecimentos. Houve em 1964 movimentos de apelo para que as Forças Armadas interviessem, porque havia discursos que atingiam a hierarquia e a disciplina, perturbavam. Isso não pode acontecer, pois são valores intocáveis. Agora, havia eleição marcada para 1965, que não aconteceu. Juscelino teria sido eleito novamente presidente. O período militar se estendeu por 21 anos de maneira desnecessária. Afastado do governo sempre estive. Nunca exerci atividade no campo político por nomeação, a não ser o Ministério da Defesa, quando era vice-presidente. Minha tribuna era a das entidades de classe.

 

Como ex-ministro da Defesa, o senhor não acha ruim o governo terminar sem resolver a questão da tortura e dos desaparecidos?

Os arquivos estão abertos, não tem nada. O que há são famílias que perderam entes queridos e gostariam de encontrá-los. Eu não sei , sinceramente, se alguém sabe onde estão essas pessoas. Se sabe, deve dizer, pois é de direito uma mãe de família ver o seu filho, enterrá-lo dignamente. Mas isso não pode ser trazido como cavalo de batalha. A anistia foi plena para os dois lados.

 

Quais as perspectivas econômicas para 2009?

O Brasil está numa situação que lhe permite sair bem desta crise. Não podemos deixar que ela contagie o espírito do brasileiro. Se a pessoa fala, fala, fala de crise, a crise a abraça. A melhor forma de sair é pela produção. Fazer investimento em infraestrutura é atacar a crise. Temos de investir na educação, o que já está acontecendo. Além da educação, é preciso investir em saúde pública. Outra questão que é preciso cuidar urgentemente é a do problema fundiário da Amazônia.

 

Está confiante na reunião do Comitê de Política Monetária do dia 20 que discutirá a taxa de juros?

Eu não mexo com a reunião do Copom, eu não sou do Copom. E não falo mais de juros. Eu critico há muitos anos a política monetária como despropositada, e é. Mas eu não preciso falar mais, porque hoje todo mundo está falando. Agora, só estou esperando que o Brasil adote um regime de juros no patamar do mercado internacional. É só o que eu quero.

 

A palavra desemprego o assusta?

Claro. O grande problema da crise é o desemprego. Deus nos livre do desemprego! A coisa mais triste que há é o cidadão receber a notícia de que perdeu o emprego, especialmente um chefe de família. Eu já falei, para evitar isso é preciso trabalhar, todos os investimentos produtivos geram emprego. Mas é preciso que o custo de capital ajude, pois é incoerência o governo pedir para que as pessoas façam investimentos enquanto o Banco Central adota taxa básica dessa natureza. Taxa de juros elevada é instrumento de combate à inflação, mas quando a inflação é de demanda. A inflação brasileira não é de demanda. Temos 50% da população que consome o essencial, e grande parte nem o essencial. Você não pode achatar o consumo de quem não consome. Estamos falando para as pessoas trabalharem e comprarem para não perderem o emprego. E o BC adota essa taxa de juros! Isso está errado.

 

O governo ainda pode reduzir impostos para alguns segmentos, como fez no IPI do setor automotivo?

No caso da indústria automobilística houve um crescimento muito grande, alguns falam em 30%. Então, é natural que caia um pouco. Tem de ser ajustado a um patamar compatível com outras atividades.

 

Acredita que a carga tributária como um todo pode ser reduzida?

O sistema tributário é uma verdadeira aberração. Temos só de impostos indiretos uma meia dúzia, como ICMS, o IPI, o PIS, a Cofins. Os países com sistema tributário enxuto têm um único imposto indireto. Isso facilita a vida das empresas e do Estado, inibe a sonegação. A reforma tributária é importante, não pode ser arremedo.

 

Entre as medidas de combate à crise, o governo reduziu o IPI para carros novos, não dependeu de uma reforma tributária.

Tratamentos isolados acabam complicando cada vez mais o sistema tributário. Temos de fazer um tratamento genérico. Precisamos resolver o problema do sistema. Não se pode dar tratamento diferenciado, vira um cipoal burocrático dos mais difíceis de se entender.

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