André Dusek|Estadão
André Dusek|Estadão

A última boneca

O problema não é mais Bolsonaro, e sim o que ele vai deixar depois que for embora

J. R. Guzzo, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2019 | 03h00

Sabe aquele brinquedo das bonecas russas, em que uma, um pouco menor, aparece dentro da outra, um pouco maior, à medida que elas vão sendo abertas, até chegar à última de todas? Parece o debate político no Brasil de hoje. A bonecona maior, aquela que você tem de abrir logo no começo, é a que leva mais pancada, porque também é a que deixa mais nervosas, do ponto da emoção nua e crua, as pessoas da classe “séria responsável” da sociedade brasileira: põe aí, por exemplo, esse homem que não gosta de rock, ou outros burocratões federais que dizem e fazem coisas análogas ao sacrilégio. A boneca seguinte já pode ser, por exemplo, a turma da Terra plana. A que vem dentro dela são os três filhos. A partir daí começamos a chegar mais perto do magma: é a boneca com pegada ministerial, digamos assim – Damares, Weintraub, Salles & cia. 

E a próxima, e última – a flor do mal em pessoa? Acertou: é Sua Excelência o sr. presidente da República, Jair Bolsonaro, que dez em dez marechais de campo do “Brasil não polarizado”, ou coisa que o valha, condenam quase diariamente como a maior ameaça para o futuro do País. Só que você errou: Bolsonaro não é, no fim das contas, a última boneca do jogo. Dentro dela há mais uma, e essa sim é a que deixa o grande “arco de centro esquerda” realmente fora de si: o problema, aí, não é mais o presidente, e sim o que ele vai deixar depois que for embora. Pode ser um país de pesadelo para muita gente. Um dia, daqui a três ou a sete anos, forçosamente não haverá mais Bolsonaro. Mas e se também não houver mais, nessa época, o Banco do Brasil?

Quem fala “Banco do Brasil” pode, perfeitamente, falar em um monte de outras coisas – sabe Deus quantas. Dá para perceber o tamanho da verdadeira complicação, não é?

Três anos são uma coisa, é claro, e sete são outra, bem diferente, mas em qualquer dos casos há a possibilidade real, clara e próxima de que o atual presidente deixe em seu lugar, quando for embora, um Brasil que não existe hoje – e que muita gente nem consegue imaginar que possa existir algum dia. O presidente Fernando Henrique, por exemplo, deixou um Brasil sem inflação, sem bancos estaduais que funcionavam como Casas da Moeda pessoais dos governadores e sem filas para comprar telefones. Não é a mesma coisa, claro – nunca é a mesma coisa. Mas foi criado, ali, um país que hoje tem mais de 200 milhões de celulares, cartões de crédito que você pode usar até para pagar o flanelinha da rua e uma porção de outros portentos que eram tidos, na época, como de existência impossível por 99% dos grandes cérebros da nossa sociedade. Pode acontecer outra vez? Pode. Pode acontecer mais.

O Brasil, em menos de um ano, já tem uma outra Previdência Social – não voltará, nunca, a ter a mesma. Não existe mais a BR Distribuidora. Lembram dela? Era uma empresa 100% “estratégica”. Já sumiu, também neste ano – e ninguém nem percebeu. Os juros, antes do primeiro aniversário do presente governo, estão a 4,5% ao ano, seu nível mais baixo em toda a história. E em 2022 ou 2026 – que país haverá aqui? O Brasil sem Bolsonaro pode ser também um Brasil sem Petrobrás. A taxa de juros pode ser parecida com a dos Estados Unidos – e nunca mais se pagarão R$ 500 bilhões por ano em juros da dívida pública. O STF não terá nada a ver com esse aí. Odebrecht, OAS e todo o mundo que elas significam – existirá isso depois de Bolsonaro? Talvez haja o voto distrital. Talvez não haja “dinheiro barato” do governo para ninguém.

Vai ser assim? O problema não é se vai ou não vai. O problema é que pode ser – e é aí, de verdade, que o bicho está pegando.

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