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A trincheira do PT

Lula alegará que é vítima de um conluio, algo macabro, para impedir que seja candidato

João Domingos, O Estado de S.Paulo

06 Janeiro 2018 | 03h00

O julgamento do recurso contra sua condenação a 9 anos e 6 meses, no caso do triplex do Guarujá, transformou-se no principal instrumento de Lula para radicalizar a luta política a seu favor. Caso consiga entupir Porto Alegre de gente a gritar que eleição sem Lula é fraude e golpe, uma forma de pressionar o Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4) a aceitar o recurso, revogar a prisão e evitar que seja enquadrado na Lei da Ficha Limpa, o ex-presidente vai dizer que abortou a segunda fase de um golpe iniciado em 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff. E que agora, livre para seguir em frente com sua candidatura, vai procurar o empresariado para mostrar que não é nenhum bicho-papão.

Se, apesar de toda a pressão, os desembargadores do TRF-4 confirmarem a sentença do juiz Sérgio Moro, Lula vai recorrer ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) com pedido de efeito suspensivo da sentença, para que não vire ficha-suja, e voltará seu discurso contra o Ministério Público, a Polícia Federal, o Judiciário e os meios de comunicação. Alegará que todos eles estão envolvidos num conluio político, algo macabro, para impedir que seja candidato, discurso que vem sendo repetido há cerca de dois anos.

Portanto, independentemente da decisão do TRF-4, Lula manterá sua candidatura à Presidência. E, no período em que aguardar a definição do recurso no STJ, talvez um pouco à frente um outro recurso, agora no STF, o ex-presidente continuará em campanha. Será o tempo suficiente para que possa medir a força que tem no eleitorado a partir de sua estratégia de se fazer de vítima.

Porque o discurso de vítima já roda o mundo em forma de abaixo-assinado em versões em português, inglês, espanhol, francês e árabe. Com o título “Eleição sem Lula é fraude”, o manifesto afirma que “a tentativa de marcar em tempo recorde para o dia 24 de janeiro a data do julgamento em segunda instância do processo de Lula nada tem de legalidade”.

“Trata-se de um puro ato de perseguição da liderança política mais popular do País. O recurso de recorrer ao expediente espúrio de intervir no processo eleitoral sucede porque o golpe do impeachment de Dilma não gerou um regime político de estabilidade conservadora por longos anos. O plano estratégico em curso, depois de afastar Dilma da Presidência da República, retira os direitos dos trabalhadores, ameaça a previdência pública, privatiza a Petrobrás, a Eletrobras e os bancos públicos, além de abandonar a política externa ativa e altiva.”

O documento é uma plataforma de campanha política. Segue dizendo que “a reforma trabalhista e o teto de gastos não atraíram os investimentos externos prometidos, que poderiam sustentar a campanha em 2018 de um governo alinhado ao neoliberalismo. Diante da impopularidade, esses setores não conseguiram construir, até o momento, uma candidatura viável à Presidência”.

Em seguida, o manifesto diz que Lula cresce nas pesquisas em todos os cenários de primeiro e segundo turno e até pode ganhar em primeiro turno. “O cenário de vitória consagradora de Lula significaria o fracasso do golpe, possibilitaria a abertura de um novo ciclo político.”

Por isso, prossegue o abaixo-assinado, na trama de impedir a candidatura de Lula vale tudo: “Condenação no tribunal de Porto Alegre, instituição do semiparlamentarismo e até adiar as eleições. Nenhuma das ações elencadas está fora de cogitação. Compõem o arsenal de maldades de forças políticas que não prezam a democracia”.

Para os autores do manifesto, “a questão da perseguição a Lula não diz respeito somente ao PT e à esquerda, mas a todos os cidadãos brasileiros”.

Como se vê, um discurso político de campanha bem completo e bem ao sabor de Lula e do PT.

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