À sua espera, polêmica com etanol e índios

Documento destaca efeitos ?nefastos? do combustível; Mércio é criticado

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2024 | 00h00

A diplomacia brasileira enfrentará duas polêmicas nos próximos dias na ONU. A primeira se refere a um relatório que será apresentado em Nova York indicando que o etanol poderá causar fome e, inclusive, já estaria causando efeitos "nefastos" para as populações mais pobres. A outra se refere à candidatura do Brasil para ocupar o posto de relator especial das Nações Unidas para os direitos dos povos indígenas.Em relação ao etanol, a polêmica está sendo aberta pelo relator da ONU sobre o Direito à Alimentação, Jean Ziegler. Tradicional aliado do presidente Lula, o relator decidiu atacar a ofensiva do governo brasileiro em promover o etanol como uma solução energética. "Os efeitos do etanol são perversos, seja o combustível produzido a partir do milho ou da cana-de-açúcar", disse Ziegler, que entregará seu relatório a todos os países da ONU.Parte do texto foi vetado pela secretaria das Nações Unidas, que teme uma reação dura por parte do governo brasileiro. Ainda assim, o recado de Ziegler será que destinar terras que são usadas no cultivo de alimentos para a produção de biocombustíveis aumentará os preços de itens básicos para a luta contra a fome. Ele destaca como, nos últimos meses, a alta dos preços das commodities foi influenciada pelo crescente uso de terras para o etanol.Apesar das críticas, entidades internacionais apontam que os efeitos do etanol de milho e de cana são diferentes. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) aponta para as ameaças do milho, mas insinua que a cana não traria os mesmos riscos. Diplomatas brasileiros alegam que o relatório não faz a distinção necessária e prometem resposta.REAÇÕESA segunda polêmica refere-se à indicação do ex-presidente da Funai, o antropólogo Mércio Pereiro Gomes, como candidato a um posto na ONU. Diante de queixas de ativistas, o governo está repensando a sugestão. Há dois anos, Mércio causou polêmica ao afirmar que os grupos indígenas no Brasil já teriam terras demais.O governo indicou seu nome para a função na ONU de monitorar a situação dos índios no mundo, visitar países e denunciar violações.O cargo é ocupado por Rodolfo Stavenhagen, do México.Na ONU, circularam mensagens entre os funcionários criticando a indicação de Mércio. No Brasil, entidades enviaram uma carta ao governo Lula, pedindo que a candidatura seja "imediatamente" retirada.Uma diplomata brasileira confirmou ao Estado que o tema está causando polêmica e caberá a Brasília decidir se a nomeação será mantida. "A pressão está forte", afirmou a diplomata.

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