Greg Beadle/World Economic Forum
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João Gabriel de Lima
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A sociedade civil não se cala. Ainda bem

Alguns governos se aproveitam da sociedade civil; outros agem de forma truculenta

João Gabriel de Lima, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2020 | 03h00

Ilona Szabó e Luiz Felipe D’Avila têm muito em comum. Nenhum dos dois exerce cargo público, mas ambos contribuem para a melhoria do debate e do ambiente político no Brasil. Ilona é fundadora do Instituto Igarapé, núcleo de estudos de ponta sobre segurança. Felipe está à frente do Centro de Liderança Pública, que estuda a excelência governamental em várias áreas. Ambos geram conhecimento valioso baseado em evidências.

Ilona e Felipe fazem parte do que chamamos de “sociedade civil”, palavra que se incorporou ao vocabulário brasileiro no combate à ditadura militar. O termo engloba sindicatos, entidades empresariais, organizações cívicas, movimentos sociais, universidades e “think tanks” – como os liderados por Ilona e Felipe. Gente que agrega grupos sociais ou produz conhecimento, e ganha voz no debate nacional. O que inclui publicar colunas em jornais e falar constantemente com a imprensa, que é a vitrine da sociedade civil.

Ilona e Felipe são os entrevistados desta semana no podcast Estadão Cidadania. A primeira temporada traz protagonistas da sociedade civil falando sobre temas quentes da eleição municipal. Ilona discorre sobre os consensos na área da segurança pública, e Felipe mostra como os prefeitos podem combater a tragédia da falta de saneamento, que flagela 100 milhões de brasileiros.

As trajetórias de Ilona e Felipe também ilustram o relacionamento, nem sempre tranquilo, da sociedade civil com os governos. 

O Centro de Liderança Pública foi fundamental no debate do novo marco do saneamento. Levou dados relevantes ao Congresso, trouxe para a conversa várias organizações não governamentais e, nas redes sociais, chamou a atenção para o fato de que muitos brasileiros não têm água limpa para lavar as mãos em plena pandemia. Com isso, o CLP garantiu um debate de alto nível em torno do projeto relatado pelo senador Tasso Jereissati. O novo marco acabou aprovado pelos parlamentares escolhidos pelos brasileiros.

O Instituto Igarapé realiza há muito tempo um trabalho semelhante, municiando governos com estudos e dados. Na presidência de Michel Temer, por exemplo, o Igarapé participou da elaboração do Plano Nacional de Segurança Pública, a convite do ministro Raul Jungmann. No governo Bolsonaro, Ilona foi convidada para o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), uma instância consultiva.

Num capítulo do livro A defesa do espaço cívico, lançado nesta semana, Ilona narra seu calvário desde que aceitou o convite do então ministro Sérgio Moro. Começou com ataques nas redes sociais, orquestrados no âmbito do “gabinete do ódio” – responsável pela hashtag #ilonanao. Sob pressão, Moro acabou por excluí-la do conselho.

Não parou aí. Ilona conta no livro que foi citada várias vezes pelo presidente Jair Bolsonaro em lives e entrevistas, sempre na posição de inimiga do governo. Tais menções afastaram apoiadores tradicionais do Instituto Igarapé e culminaram com ameaças à integridade física de Ilona e sua família. Hoje ela vive fora do Brasil.

Uma sociedade civil vibrante e engajada é o que o Brasil tem de melhor. Algumas instâncias de governo se aproveitam desse capital inestimável. Outras agem de forma truculenta contra o maior ativo de qualquer democracia. Para nossa sorte, em colunas e entrevistas – ou em podcasts como o Estadão Cidadania” – Felipe e Ilona não se calam, e continuam a ser vozes relevantes em nosso debate público.

Para saber mais

 

Podcast com Priscila Cruz

 

Podcast com Sérgio Avelleda

Podcast com Ilona Szabó

Coluna sobre a primeira temporada do podcast “Estadão Cidadania”

joaogabrielsantanadelima@gmail.com Twitter: @joaogabrieldeli

* JORNALISTA, ESCRITOR E PROFESSOR DA FAAP E DO INSPER

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