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Cláudio Couto
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A segunda inflexão de Marina?

Num cenário político percebido cada vez mais como marcado pela amoralidade pragmática, ou mesmo pela imoralidade pura e simples, a liderança de Marina Silva parece se diferenciar. Enquanto políticos dos mais diversos partidos parecem não se incomodar com alianças até poucos anos atrás improváveis, mudanças repentinas de posição e concessões consideráveis com respeito a seus princípios mais fundamentais, Marina é vista como alguém que evita certas aproximações e se mantém fiel às convicções.

CLÁUDIO COUTO, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2014 | 02h02

Tal imagem não é mera miragem e se deve a muitos dos posicionamentos por ela assumidos ao longo de sua trajetória política. Primeiro nome anunciado para o ministério do então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, Marina despontava como um grande trunfo simbólico do novo governo petista que se iniciaria. Afinal, se forjara numa luta coerente no movimento social ambientalista, iniciada ao lado do mártir Chico Mendes e coroada por uma atuação destacada no Senado. Mais do que isso, sua trajetória pessoal, marcada pela superação das condições mais adversas - inclusive de saúde -, credenciavam-lhe como uma lutadora incansável e destemida.

Todo esse percurso foi importante, mais tarde, para dar coerência ao momento de sua guinada, quando deixou o Ministério do Meio Ambiente para, pouco tempo depois, abandonar o PT. Parecia que o partido mudara, mas não ela. Ou, ao menos, se ambos mudaram, fizeram-no de formas distintas: um, afastando-se de seus princípios norteadores originais, a outra, aprofundando-os. Adveio daí um novo reforço de sua imagem de integridade, já que a ruptura com a agremiação na qual construíra sua carreira política se apresentava como uma reafirmação da própria identidade.

Foi esse seu trunfo decisivo na bem sucedida candidatura presidencial alternativa em 2010, quando se sagrou a mais bem votada terceira colocada das eleições presidenciais no Brasil desde a redemocratização. O resultado surpreendente lhe catapultou a um novo patamar no cenário político nacional, tornando quase inevitáveis a recandidatura e o projeto de liderar a criação de um partido de tipo novo, o Rede Sustentabilidade.

O malogro da criação da nova agremiação em tempo hábil para as eleições de 2014 tornou difícil a recandidatura, sobretudo para quem se esforçava em manter uma trajetória especialmente coerente. Diante disso, abdicou por lançar-se por uma agremiação qualquer (como o PPS, que lhe desejava) e buscou abrigo no PSB, que hipotecara apoio moral ao seu projeto desde antes.

Esse ingresso na agremiação de Eduardo Campos ensejou uma conduta que combinava, paradoxalmente, humildade e intromissão. Por um lado, desde a primeira hora Marina e seus aliados anunciavam que não entravam ali para solapar o projeto presidencial de quem lhes hospedava. Por outro, uma vez formada a chapa presidencial na qual secundavam o líder do partido, puseram-se a palpitar e criticar as alianças regionais do PSB, bem como a marcar posições que dificultavam (ou mesmo implodiam) certas aproximações já desenhadas por Campos - como ocorreu com o agronegócio.

De qualquer modo, o ingresso no PSB, no último dia do prazo para filiações, representou uma inflexão pragmática da aparentemente idealista Marina Silva. Obrigou-lhe a relativizar o purismo de sua imagem, marca de sua trajetória. Explicitou que também ela possui um traço comum às lideranças políticas de maior envergadura, poder e ambição: a capacidade de estabelecer soluções de compromisso.

Após a tragédia, caso se torne mesmo a candidata presidencial por um partido que apenas lhe deu abrigo provisório e com o qual mantém relações tensas, Marina terá de iniciar um processo de recomposição, concessões e flexibilizações. Será uma nova inflexão pragmática. Caso venha a vencer, o treino lhe terá sido muito útil.

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