A saída ainda é o Galeão?

A saída para o impasse político atualmente vivido pela Presidência da República pode estar fora do país. Diferentemente, contudo, da "boutade" típica dos anos oitenta, que relacionava a solução do problema nacional à emigração, a mensagem agora é outra: a superação da corrente crise de governabilidade passará, ao menos parcialmente, pela reabilitação da política externa como ferramenta de desenvolvimento econômico e fonte de autoestima nacional.

Dawisson Belém Lopes*, O Estado de S. Paulo

28 de setembro de 2015 | 20h46

O segundo mandato de Dilma Rousseff tem sido caracterizado, no front externo, por maior dinamismo. O refazimento das pontes diplomáticas com os Estados Unidos e o reforço das negociações com a Europa - do que as visitas de Dilma a Washington e de Merkel a Brasília dão forte testemunho - inauguram, possivelmente, nova etapa de nossa estratégia de política exterior para os próximos anos. 

A desvalorização do real frente às principais moedas do comércio internacional, a desaceleração do crescimento chinês e, finalmente, o reconhecimento público dos limites do modelo desenvolvimentista de Guido Mantega, ajudam a explicar um provável retorno - ainda que envergonhado - às chamadas "parcerias tradicionais" do Brasil, em relativo prejuízo da emblemática cooperação Sul-Sul.

De uma perspectiva simbólica, o uso do púlpito das Nações Unidas na segunda-feira (28/9) para enfatizar nossa voluntariosa política migratória, bem como o empreendedorismo que nos coube no debate sobre emissão de gases estufa, contrasta com os discursos da representação brasileira em 2013 e 2014, permeados pela circunstância eleitoral e, por isso, repletos de referências a temas e processos de política interna. Mais um indício de que o governo muda de rumos nessa área, revertendo certa tendência ao ensimesmamento.

Não é a primeira vez que se tenta uma saída "para fora" como resposta para a iminente convulsão doméstica. Bernardes com a Liga das Nações, Vargas com a equidistância pendular, Quadros e Goulart com a diplomacia independente, Geisel e Figueiredo com o pragmatismo responsável, Collor com a Conferência Mundial do Meio Ambiente - todos buscaram compensar algum desarranjo interno com logros internacionais. O que se vai ponderar, todavia, é se a "redescoberta" da política externa pela gestão Dilma não terá sido demasiado tardia.

*É professor de Política Internacional da Universidade Federal de Minas Gerais e autor de "Política Externa na Nova República: Os Primeiros 30 Anos" (Ed. UFMG, prelo).

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