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À revelia dos fatos

João Bosco Rabello, O Estado de S. Paulo

04 Fevereiro 2015 | 17h02

O que mais chama a atenção nas mudanças na Petrobrás não é a demissão de Graça Foster, mas sua longa sobrevida  após os acontecimentos que implodiram a empresa, envolvendo corrupção e gestão temerária, consequências do  aparelhamento partidário e uso político da empresa.

O desgastante processo que teve desfecho nessa terça-feira, 3, foi sustentado pela presidente Dilma Rousseff, sem qualquer explicação pública, mesmo diante da sangria da Petrobrás em praça pública, prisão de ex-diretores, suspeição sobre o ex-presidente, processos no exterior e queda vertiginosa das ações, além das dúvidas sobre o grau hierárquico relativo às responsabilidades pelos prejuízos.

Formalmente, Dilma sustentou Foster com uma declaração  sintomática  da filosofia defensiva que rege os governos do PT. "Não vejo nenhum indício de irregularidade na atual diretoria. Quando não vejo irregularidade, não posso querer punir" (frase em café da manhã com jornalistas em dezembro).

Talvez reflexo dos tantos episódios desabonadores protagonizados pelo partido em 12 anos de  governo , idoneidade vira virtude e critério para avaliar gestões.  Por não ter nada que desabone sua conduta pessoal e moral, Graça Foster  permaneceu na Presidência, mesmo sem mais autoridade administrativa e política para exercê-la. Do que é prova a alta das ações da empresa em 15% quando o mercado percebeu que Graça sairia.

Mas não foi por se convencer, afinal, dessa circunstância, que Dilma tomou a iniciativa de apeá-la do cargo ao qual já tentara renunciar algumas vezes. Saiu porque descontentou a presidente da República ao tentar fechar o balanço não auditado da empresa com o prejuízo de R$ 88 bilhões, apurados internamente como valor do rombo provocado pelo esquema de corrupção instalado na empresa.

Tudo é errático nesse processo com ares surrealistas. O veto à inserção do rombo no balanço foi exercida por Guido Mantega, já fora do governo, mas ainda no Conselho da empresa, posto correspondente à sua ex-função de ministro da Fazenda, na qual foi mantido mesmo após anunciado seu sucessor. E por Míriam Belchior, ex-ministra do Planejamento, ainda sem lugar na composição da nova equipe.

Não houve também comunicado formal ao distinto público, nem pelo governo e nem pela empresa, apesar da reunião entre Dilma e Foster, nessa terça, em Brasília. O Secretário de Comunicação da Presidência, Thomas Traumann, indagado sobre a versão da demissão de Foster, disse que o assunto não fora tratado na reunião de ambas.

Mais que omitir, o governo desinforma sobre um fato consumado. Dilma chegou a uma decisão e Graça Foster saiu da reunião informada de que não permaneceria à frente da empresa. Mas, saiu a pedido, como todos os integrantes dos governos do PT, mesmo aqueles atingidos por fatos desabonadores. 

A Petrobrás também não fez qualquer anúncio público. Limitou-se a informar à Bolsa de valores sobre eleições para a nova diretoria na sexta-feira próxima. Por dedução, portanto, soube-se que Foster caíra. E pela Bolsa de Valores. Ao contrário do que circulara ontem, Graça não permanecerá no posto até a escolha de seu substituto, o que conflita com a defesa de que este só assuma após a auditoria das contas. Se a substituição estiver condicionada à auditoria, por imposição do escolhido para o cargo, esse processo pode durar meses. Com a renúncia de Foster, a vacância por esse tempo é impensável. Das duas, uma: ou o governo foi surpreendido pela renúncia, ou já conseguiu acordo com o substituto para que assuma antes mesmo da auditoria. 

É o raciocínio sobre hipóteses que escancara a falta de transparência do governo na condução do processo. Este não deveria impor ônus ao mercado e acionistas que se veem obrigados a buscar informações em fontes paralelas, alimentando versões de toda a sorte e agravando as oscilações na Bolsa.

Por sorte, a última versão, da saída de Foster, provocou alta, o que ocorreria, no entanto, ainda que não fosse verdadeira. A alta se deu porque a versão iria virar fato em algum momento, dada a impossibilidade de o governo manter o jogo de cena. Sua propagação pode ter ajudado a consumar o fato.

Resta de tudo, que o interesse público pela informação clara é o que menos orienta o governo. Não se pode nem falar da hierarquia da informação, princípio básico da comunicação - algo com começo, meio e fim -, pois a desinformação parece divertir o governo. Quanto mais versões desencontradas, mais boatos e especulações, mais o governo do PT parece aplacar sua contrariedade com a notícia. 

E, principalmente, com os fatos. No caso da Petrobrás, desmentido terça e consumado nesta quarta. 

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