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A ressaca da ‘greve’

Dor de cabeça será sentida pelos pré-candidatos à Presidência, por todos os setores da economia e pela sociedade

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2018 | 03h00

A ressaca do fim da greve dos caminhoneiros será longa e deixará mareado não só o governo Michel Temer, que, um ano depois de ser ferido de morte pelo caso JBS, veio a óbito político neste outro maio.

A dor de cabeça será sentida pelos pré-candidatos à Presidência, por todos os setores da economia e pela sociedade, essa que é sempre convidada a fazer figuração em festa estranha com gente esquisita, acaba bebendo demais e fica sozinha para limpar o salão quando a farra acaba.

O governo foi liquidado por não ter conseguido se antecipar à chantagem dos caminhoneiros e, uma vez feito refém, ter negociado mal. Cedeu em tudo, sem garantia de que os grevistas cumpririam os sucessivos acordos. Ameaçou endurecer para depois assoprar e só foi tentar fazer valer sua autoridade quando o protesto já minguava.

Os presidenciáveis, submetidos ao primeiro teste de fogo da campanha, se perderam entre o oportunismo e a covardia. No primeiro bloco, pontificaram Alvaro Dias (Podemos) e Jair Bolsonaro (PSL), que, afoitos em surfar num apoio algo irracional aos grevistas, saíram pregando mão grande na Petrobrás e na definição dos preços dos combustíveis, como se não houvesse uma conta decorrente disso e já não tivéssemos visto este filme.

No grupo dos que foram tímidos em defender a independência da petroleira estão Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede). Que, aliás, não questionaram os métodos de um movimento que parou o País – o tucano só o fez na segunda-feira.

O saldo é que nenhum deles ganha com o episódio, nem mesmo Bolsonaro, convertido em herói do novo caminhoneirismo de WhatsApp, mas que depois percebeu a maré da opinião pública virar e saiu da boleia.

O prejuízo para a economia é evidente. Ele se traduzirá em mais inflação, menos crescimento e mais aperto de gastos públicos.

Resta falar da sociedade. Essa que em parte embarcou na ilusão de que o que estava em curso era um levante patriótico contra privilégios, corrupção e altos impostos. Trata-se da maior perdedora. Se ao menos a ressaca moral servir para que ela vá para a próxima festa, a das eleições, menos disposta a pagar mico e mais ciosa do País que quer construir, quem sabe a dor de cabeça não terá sido didática?

DEBATE ELEITORAL

Bolsonaro e a fragilidade da conversão ao liberalismo

Até a greve dos caminhoneiros, até candidatos com trajetória marcada pela defesa de corporações e do nacional-estatismo e contrários à ideia de um Estado menor e de um mercado autorregulável faziam discurso marcado pela suposta conversão ao liberalismo. Surfavam, assim, numa certa onda formada a partir de um vento de direita que passou a soprar depois do impeachment de Dilma Rousseff. Assim estava Jair Bolsonaro, ajoelhado no altar do ultraliberalismo de Chicago, ao qual foi recém-apresentado. Resta como pauta saber o que Paulo Guedes, o mentor econômico do deputado do PSL, acha de subsídio ao diesel, reserva de mercado para frete da Conab e redução por decreto de pedágios, algumas das heranças do movimento no qual seu candidato mergulhou com a verve de sempre. Tanta que o fez se esquecer até de seu próprio projeto que pune obstrução de vias para prometer anistia a multas aplicadas aos “patriotas” que paralisaram o País.

 

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