A privatização que ACM questiona

Presente em 16 estados do País, a Tele Norte-Leste foi adquirida pelo consórcio Telemar, por R$ 3,430 bilhões, com apenas 1% de ágio, o mais inexpressivo do leilão de todas empresas da Telebrás, realizado em 29 de julho de 1998.Apesar do quase inexistente ágio, houve disputa pela Tele Norte-Leste, mas confinada aos bastidores, já que o outro concorrente - o consórcio integrado pela Itália Telecom e banco Opportunity - inexplicavelmente apresentou proposta para compra de outra empresa - a Tele Centro-Sul - e ficou impedido, pelas regras do leilão, de oferecer lance pela Tele Norte-Leste. A notícia que correu no mercado financeiro, na época, é que o consórcio do Opportunity teria oferecido um ágio de quase R$ 1 bilhão. Nunca se soube ao certo, já que o envelope, com proposta de compra e preço, foi destruido no ato do leilão. O foco da disputa entre os dois consórcios eram os fundos de pensão de empresas estatais, liderados pela Previ (do Banco do Brasil). Os dois precisavam dos recursos dos fundos para compor o capital necessário para comprar a empresa.A Previ acabou optando pelo consórcio Telemar, integrado pelas empresas Andrade Gutierrez, Inepar, Macal (de Antonio Dias Leite), Fiago (os fundos de pensão, inclusive Previ) e duas seguradoras que tinham o Banco do Brasil como sócio majoritário.Embora não figurasse oficialmente como integrante do consórcio, o empresário Carlos Jereissati, do grupo La Fonte, é quem falava pelo grupo e tornou-se o primeiro presidente do Conselho de Administração da nova Telemar privatizada. Na época diretor da área internacional do Banco do Brasil, Ricardo Sérgio de Oliveira também respondia pela vinculação do BB com seu fundo de pensão. Na fita do grampo do BNDES surgiu um diálogo seu com o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros, no qual ele aparece declarando "estamos no limite da nossa irresponsabilidade", ao referir-se ao pedido do ex-ministro para que o BB assinasse carta de garantia ao consórcio do Opportunity. Naquele momento, a Previ já optara pelo consórcio Telemar, e a assinatura do BB em favor do Opportunity seria inócua. No dia seguinte ao leilão, o vice-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), José Pio Borges, criticou o consórcio Telemar, chamando-o de "chapa branca", uma referência à participação de dinheiro do Estado através dos fundos de pensão e de duas seguradoras do Banco do Brasil (Aliança e Brasil Veículos). Mas como se aproximava o dia do depósito da primeira parcela de pagamento, e o consórcio não conseguira reunir o capital necessário, ironicamente o BNDES acabou acrescentando seu nome ao grupo de empresas do consórcio Telemar, injetando recursos equivalentes a 25% do capital da Tele Norte-Leste privatizada.

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