A primeira radiografia do câncer no Brasil

A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) está lançando este mês o Projeto Câncer Brasil. Trata-se de um banco de dados sobre a doença no País, atualizado, informatizado e com acesso rápido e gratuito pela Internet. Médicos oncologistas, epidemiologistas, estudantes de medicina, políticos e interessados poderão acessar números sobre mortalidade, pacientes internados ou em tratamento e os tipos de câncer que atingem homens e mulheres de várias faixas etárias e regiões.O câncer é a segunda causa de morte por doença no Brasil. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima que este ano serão 305.330 novos casos e 117.550 óbitos. "O projeto vem sendo desenvolvimento há três anos pela necessidade de informações reais para análises, estudos e cruzamento de dados", conta Lucilda Cerqueira Lima, presidente da SBOC. A situação pode piorar. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os países que não se preocuparem com uma política de prevenção e diagnóstico precoce terão índices epidêmicos. "Um terço das pessoas com câncer morre por ano. É um dado para repensar no que é feito". A conexão será feita pela Internet com um software distribuído pela SBOC, que tem sede em Florianópolis. Desenvolvido pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o programa utiliza os dados do Sistema de Informações de Mortalidade do Sistema Único de Saúde (SIM/SUS), do Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS) e as Autorizações de Procedimentos de Alto Custo Complexidade (APACs) do Ministério da Saúde. Os dados populacionais são fornecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).RECURSOS DIRECIONADOS"Além da prevenção, diagnóstico precoce e tratamento, o projeto é importante para alocação de recursos de acordo com o neoplasia (câncer)", avisa Lucilda. O resultado é um mapeamento sobre os tipos de câncer mais comuns em determinada região do País e em faixas etárias específicas. "Será possível analisar as necessidades de acordo com a região, e voltar atenção básica para pacientes sem recursos mínimos para um diagnóstico precoce." "A formação do médico clínico é voltada para a saúde individual, com esses dados ele consegue uma visão coletiva da doença no Brasil", comenta Eleonora d´Orsi, consultora da SBOC e médica epidemiologista do Centro de Pesquisa Oncológica (Cepon), em Florianópolis. De acordo com os dados da APAC/SUS, mais de 40% dos pacientes chegam em estágio avançado para tratamento. Com essa radiografia, segundo Eleonora, o médico passa a pensar também em prevenção. Alguns tipos de câncer (próstata, reto, intestino e mama) estão associados com a dieta rica em gorduras. Então, comer mais vegetais e legumes será uma prevenção primária. "Da mesma forma, o câncer de pulmão. Em 98, foi o maior causador de mortes entre os tipos de neoplasia, sabe-se que 90% desses óbitos estão relacionados ao tabagismo", exemplifica Eleonora. A POLÍTICA DOS NÚMEROSA população do Brasil em 2000 era de 169.544.443 habitantes, dos quais 85% da população utilizava o SUS. No ano passado, 6,4% do total da verba direcionada para saúde foi utilizada para o câncer, R$ 713 milhões. Deste total, 67% foram gastos com atendimento ambulatorial de alta complexidade, como quimioterapia e radioterapia. O restante, R$ 235 milhões, com internações.Os números já estavam disponíveis em instituições como SUS, IGBE e APACs, mas separados. O sistema reúne e facilita a atuação dos profissionais, que utilizavam dados estrangeiros para análise de um quadro geral da doença. "Esse sistema é um avanço", elogia José Getúlio Segallo, diretor do Departamento de Oncologia Clínica do Hospital Amaral Carvalho, em Jaú (SP). Segundo Segallo, é complicado tirar "conclusões simplistas pela ausência de números reais em incidência e prevalência".Para um número exato, deveria existir um registro básico de todos os novos casos de câncer, mas os registros representam dados do DATASUS. "O dado responde por uma parte e não é a realidade de 100% da população", frisa Segallo. Exemplificando: determinados tratamentos, como a terapia hormonal para câncer de mama, não são cobertos por planos de saúde; o remédio é muito caro. O paciente recorre ao medicamento por conta própria. No entanto, o SUS fornece outros remédios para determinadas neoplasias, como o câncer de próstata. Resultado: o registro de câncer de próstata aumentaria pela procura de medicamentos acessíveis pelo SUS, e existiria uma diferença no número de pacientes em tratamento no câncer mamário. Essa desafagem de números é apenas um dos exemplos de análise simplificada do banco de dados. "É importante ressaltar o perigo de conclusões simplistas. Outro exemplo é que conclui-se que gastamos mais com tratamento do que com prevenção. Realmente, deve-se gastar mais com prevenção, mas não diminuir verbas disponíveis hoje para tratamentos", alerta Segallo. Os óbitos registrados em 98, últimos números disponíveis do SIM/SUS, totalizaram 110.775. As mortes por neoplasias são menores somente do que as doenças do aparelho circulatório, lembrando que as causas externas, como violência e acidentes, ficaram em segundo lugar. Entre as mulheres jovens, o câncer de mama é responsável por 10% dos óbitos. O porcentual aumenta entre as que estão acima dos 60 anos, 50%.CRÍTICAS - As críticas sobre os números são bem recebidas e, de acordo com Eleonora, essa base de dados oficiais "tem limitações como qualquer outra e deve ser crítica. É o papel da sociedade (médicos) para o aperfeiçoamento destes registros", conclui. "O uso de informações atualizadas é imporante para o planejamento de serviços de saúde, inclusive para estabelecer uma política nacional do câncer com dados mais precisos", finaliza Lucilda.

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