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Após admitir punição, Bolsonaro defende Flávio: 'Não é justo usar um garoto para me atingir'

Presidente adota posturas diferentes sobre apurações envolvendo o filho mais velho; primeiro, diz que, se ele errou, ‘terá de pagar’; depois, que ‘pressão’ visa a atingir seu governo

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2019 | 22h05
Atualizado 23 de janeiro de 2019 | 23h15

Em entrevistas concedidas nesta quarta-feira, 23, a emissoras de TV durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, o presidente Jair Bolsonaro adotou posturas diferentes ao responder sobre as suspeitas e investigações envolvendo movimentações financeiras consideradas atípicas de seu filho mais velho, o deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).

Primeiro disse que, se ficar comprovado que o filho cometeu eventuais irregularidades, ele “terá de pagar o preço”. Depois, saiu em defesa de Flávio, afirmando que ele sofre “pressão enorme” que tem por objetivo atingi-lo. 

“Ele tem explicado tudo o que acontece com ele nessas acusações infundadas. Não é justo atingir um garoto para tentar me atingir. Nós não estamos acima da lei, agora que cumpram a lei, não façam de maneira diferente para conosco”, afirmou Bolsonaro em entrevista ao Jornal da Record, exibida na noite desta quarta-feira, 23. “A pressão enorme em cima dele é para tentar me atingir. Ele esteve com o seu sigilo quebrado, fizeram uma arbitrariedade em cima dele.”

Mais cedo, no entanto, a agência Bloomberg veiculou uma entrevista com Bolsonaro na qual o presidente adota um tom diferente: “Se por acaso Flávio errou e isso ficar provado, eu lamento como pai. Se Flávio errou, ele terá de pagar o preço por essas ações que não podemos aceitar”, disse.

Bolsonaro se manifestou diretamente sobre o assunto após o caso ganhar maior dimensão nos últimos dias e desgastar o seu governo, que ainda não completou um mês. Ele vinha evitando a imprensa no momento em que se avolumaram citações a Flávio Bolsonaro em documentos de investigações e suspeitas. 

O incômodo com o tema teria sido um dos principais motivos que levaram ao cancelamento do pronunciamento e coletiva de imprensa no Fórum Econômico Mundial com o presidente e os ministros Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública), Paulo Guedes (Economia) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores).

‘Apurar e punir se for o caso’, diz Mourão 

No Brasil, o presidente em exercício, Hamilton Mourão, recorreu a uma expressão militar para reforçar a declaração inicial do presidente e defender apuração no caso envolvendo Flávio. “Qual é a sigla? Tu já sabe. ‘Apurundaso’. Apurar e punir se for o caso”, disse. 

Já o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, declarou que o Planalto “não vai perder o norte” e vai aguardar o andamento das apurações. 

No início de dezembro do ano passado, antes de Bolsonaro tomar posse, o Estado revelou que um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações suspeitas de R$ 1,2 milhão numa conta de Fabrício Queiroz – ex-assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) – entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017.

O procedimento de investigação criminal do qual Queiroz é alvo foi aberto há seis meses e tem como foco de apuração a suspeita de lavagem de dinheiro ou “ocultação de bens, direitos e valores” no gabinete do deputado estadual na Alerj.

Flávio Bolsonaro é alvo de ação cível. Ele e outros 26 parlamentares da Assembleia fluminense são investigados por suspeita de improbidade administrativa, embora haja suspeitas de devolução ilegal aos parlamentares de parte dos salários ou benefícios dos funcionários, em supostos crimes de peculato.

O Ministério Público do Rio tenta desde o mês passado ouvir o depoimento de Queiroz. Convidado, o senador eleito também não prestou esclarecimentos aos promotores. Ele obteve na semana passada uma liminar do ministro Luiz Fux do Supremo Tribunal Federal para suspender as investigações envolvendo seu ex-assessor. 

Na reclamação feita ao Supremo, Flávio Bolsonaro pede a anulação de provas e argumenta que deveria ser processado no STF pelo fato de que assumirá o mandato no Senado. A decisão sobre a reclamação caberá ao ministro relator Marco Aurélio Mello, que já indicou que irá rejeitar os pedidos. A manifestação da defesa de Flávio foi considerada um erro por integrantes do Planalto, que “nacionalizou” a crise antes circunscrita à Assembleia do Rio. 

Na sexta-feira, o Jornal Nacional, da TV Globo, divulgou um novo relatório do Coaf, no qual Flávio aparece como destinatário de depósitos fracionados no valor de R$ 2 mil cada no total de R$ 96 mil entre junho e julho de 2017, além do pagamento de título da Caixa de R$ 1 milhão. 

O senador eleito disse que os recursos estão relacionados à compra de imóveis. O Estado revelou na quarta-feira, 22, que a Receita Federal vai cruzar informações levantadas pelo Coaf com as declarações de Imposto de Renda dos parlamentares estaduais e servidores e ex-servidores da Alerj que apresentaram movimentações financeiras atípicas.

O último episódio de desgaste envolvendo Flávio Bolsonaro veio a público na terça-feira, 22, com a revelação de que seu gabinete empregou a mãe e a mulher de um ex-capitão da Polícia Militar, acusado de comandar uma das principais milícias do Estado. As indicações foram atribuídas a Queiroz, que também é policial militar. / CARLA BRIDI, DANIEL WETERMAN, MATEUS FAGUNDES, TÂNIA MONTEIRO e IDIANA TOMAZELLI

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