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A 'prensa' da realidade

Equipe de transição do presidente eleito precisa se ater às articulações com o atual Congresso

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2018 | 05h00

A transição de governo está se encarregando de dar a Jair Bolsonaro e sua equipe, todos inexperientes em gestão pública, um choque de realidade. A semana em que Paulo Guedes ameaçou dar uma “prensa” no Congresso termina com a velha política, governos de outros países, as corporações e o mesmo parlamento mostrando os dentes de volta e deixando claro que existe um fosso entre retórica de campanha e os desafios de governar um País tão complexo quanto o Brasil.

O maior baque veio da vergonhosa aprovação do reajuste de 16,38% dos salários dos ministros do STF, que com seu efeito cascata vai ajudar a ampliar o rombo das contas públicas não só da União, mas de Estados igualmente encalacrados. Mais: a porteira arrombada graças ao conluio silencioso orquestrado por Dias Toffoli e Eunício Oliveira em sua saideira vexaminosa deve assanhar deputados e senadores a darem um upgrade nos próprios contracheques antes que muitos deles saiam do Congresso pela porta dos fundos que lhes foi aberta pelo eleitor.

O que a votação-molecagem mostra sobre o futuro governo? Que a arrogância de Guedes e companhia em achar que será na base da soberba que se aprovarão medidas intrincadas como as reformas precisa ser deixada no Centro Cultural Banco do Brasil antes que provoque estragos maiores na largada do futuro governo.

O governo de transição se mostrou nas duas primeiras semanas ainda desarticulado politicamente. Onyx Lorenzoni parece desfrutar do gostinho de ter sido uma ovelha desgarrada e escapado, nessa condição, da derrota acachapante do Centrão, com seu partido, o DEM, no barco. 

Assim, se delicia com a aflição dos dirigentes democratas, que esperam contar com o apoio de Bolsonaro para a recondução de Rodrigo Maia ao comando da Câmara a despeito de o partido ter saído das urnas como legenda apenas média.

Só que postergar essa articulação, não só com o DEM, mas com outros partidos do chamado establishment, pode comprometer a maioria necessária ao governo para usar seu empuxo inicial dado pelas urnas para aprovar de uma vez a reforma da Previdência e assegurar alguma capacidade de investimento e de ação nos próximos quatro anos. Insistir na cantilena falsa de que medidas pontuais, de caráter infraconstitucional, resolverão o nó da Previdência, como fizeram Bolsonaro a assessores nos últimos dias, é começar a rasgar o voto de confiança dado pelo mercado e pelos demais atores econômicos ao presidente eleito ainda antes do primeiro turno.

O diagnóstico de que é necessário reformar, e rápido, o atual sistema, incluindo sim o setor público, para depois caminhar para o regime de capitalização defendido por Guedes parecia assimilado pelo núcleo duro do bolsonarismo, mas a semana que passou representou um recuo de muitos passos neste que é o aspecto mais importante de todos para o início do mandato.

Enquanto se desgasta em polêmicas muitas vezes infantis, no vaivém de anúncios de números de pastas e fusões de áreas, a equipe de transição se desvia desse que teria de ser seu foco principal. 

É forçoso que Bolsonaro e Guedes definam que proposta vão finalmente abraçar para a Previdência, detalhem o projeto e passem, juntamente com o resto do time, a defender a medida e a articular sua aprovação pelo Congresso – sem tergiversar nem pensar que um puxadinho aqui ou um remendo em calça velha ali podem servir pro gasto. E que essa equipe neófita compreenda que é preciso ter coesão na sua comunicação, sob pena de passar as próximas semanas apagando incêndios por motivos fúteis e gastando capital e energia em vez de aproveitar o período das urnas à posse para treinar e já estrear sabendo o que vai fazer.

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