Diane Sampaio/Folha de Boa Vista
O ex-governador Neudo Campos se entrega à polícia suspeito de corrupção na área da saúde Diane Sampaio/Folha de Boa Vista

A política policial em Roraima, a terra de Jucá

Ministro do Planejamento cai, ex-governador é preso e Estado pode sofrer intervenção federal

Ricardo Galhardo - Enviado especial / BOA VISTA, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2016 | 05h00

Estado brasileiro com a menor população, cerca de 505 mil habitantes, Roraima esteve no centro do debate nacional na semana passada devido a escândalos protagonizados por políticos locais.

O primeiro personagem foi Romero Jucá (PMDB), ex-governador e hoje senador eleito por Roraima, obrigado a se afastar do Ministério do Planejamento depois de ser flagrado em uma gravação na qual fala em “conter a sangria” da Operação Lava Jato.

 

O segundo ato envolveu dois arquirrivais de Jucá, o também ex-governador Neudo Campos (PP) e a médica Suzete Macedo, mulher do senador Telmário Mota (PDT-RR), ambos presos por suspeita de envolvimento com o “escândalo dos gafanhotos” – que desviou R$ 70 milhões da saúde de Roraima na década passada. Suzete foi liberada horas depois de se apresentar à Polícia Federal, graças a um habeas corpus do Tribunal Regional Federal da 1.ª Região.

Já Campos permanece preso na sede da Polícia Federal em Boa Vista depois de uma cinematográfica tentativa de fuga para a Venezuela que, segundo os investigadores, contou com apoio de policiais lotados na Casa Militar da governadora Suely Campos (PP), mulher de Neudo.

Segundo a PF, a Justiça Federal em Roraima autorizou o compartilhamento do material colhido sobre a tentativa de fuga com a Procuradoria-Geral da República. Em nota, a Polícia Federal fala em “representação interventiva” no Estado com base no artigo 34 da Constituição, que prevê intervenção federal para “prover a execução de lei federal, ordem ou decisão judicial”. A decisão caberá ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

De acordo com a investigação, os policiais atuavam como “guarda-costas” de Neudo e usaram rádios e outros equipamentos da Polícia Militar para transferir o ex-governador dos esconderijos onde esteve durante os cinco dias em que passou foragido.

O plano era escoltá-lo até a Venezuela, mas os dois policiais foram presos e Campos foi obrigado a se entregar. Suely, por meio de sua assessoria, nega participação na tentativa de fuga e refuta a possibilidade de intervenção, alegando que “não existe qualquer fundamento constitucional para se falar em ação interventiva no Estado de Roraima, uma medida de exceção, cujos pressupostos legais não se encontram presentes na suposição levantada pela PF”.

Suely foi lançada candidata na reta final da campanha de 2014 depois que a Justiça barrou a candidatura de Neudo com base na Lei da Ficha Limpa.

De fato. Segundo adversários, Neudo é o governador de fato. Em depoimento à Polícia Federal, o empresário venezuelano Pablo Martinez Gonzalez disse ter ouvido da governadora que “Neudo, na condição de assessor do governo, é o encarregado de negociar e supervisionar os projetos de investimentos”. O governo diz que o ex-governador se afastou desde que deixou o cargo de assessor, em janeiro.

Já sob custódia da Polícia Federal, na quarta-feira, Neudo acusou Jucá e o juiz federal Hélder Girão Barreto de perseguição política. O senador Telmário, autor de pedido de cassação do ministro licenciado no Senado, fez coro.

O juiz já esteve do lado oposto ao atribuir ao governo perseguição quando tentou tirar parentes da governadora de cargos no governo. Suely mantém um sobrinho, a irmã, uma filha e o sogro da filha como secretários de Estado. A irmã, Emília Mulinari, já teve os bens bloqueados pela Justiça. No ano passado, porém, o Conselho Nacional de Justiça decidiu afastar o juiz por irregularidades na contratação de arquitetos para a construção de um anexo do Tribunal de Justiça. A decisão foi suspensa pelo Supremo Tribunal Federal.

Outra autoridade do Estado, o presidente da Assembleia Legislativa, Jalsen Renier, aliado de Jucá, teve o afastamento do cargo decretado pelo STF no ano passado, também por envolvimento com o “escândalo dos gafanhotos”, mas conseguiu reverter a decisão.

Teresa Surita (PMDB), ex-mulher de Jucá e prefeita de Boa Vista pela quarta vez, é ré ao lado do ex-marido em uma ação de execução fiscal por um empréstimo irregular de R$ 10 milhões tomado do Banco da Amazônia no caso conhecido como escândalo da Frango Norte.

‘Temer presidente’. No dia 14, apenas dois dias depois de o Senado ter afastado a presidente Dilma Rousseff do cargo, Teresa inaugurou as obras de remodelação da Praça das Águas, no centro de Boa Vista, bancadas em parte pelo governo federal. Na placa se lê “Michel Temer presidente da República”. A versão que corre na cidade é de que se trata da primeira placa com o nome de Temer como primeiro mandatário.

Para o historiador Aimberê Freitas, ex-prefeito de Boa Vista e autor de mais de 20 livros sobre a história do Estado, o longo histórico de escândalos envolvendo os políticos locais é uma sequela das mais de quatro décadas em que Roraima foi território federal, de 1943 a 1988. “Isso repercute até hoje porque toda a autoridade se concentra nas mãos do Estado. O território tinha só quatro deputados federais. Hoje tem oito deputados, três senadores, deputados estaduais, etc. Isso faz com que cresça a vontade de ocupar os espaços”, disse ele. A prefeita de Boa Vista, o presidente da Assembleia do Estado e o juiz Barreto foram procurados, mas não quiseram atender a reportagem. A irmã da governadora não foi localizada.

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Pajelança para celebrar a queda do ministro do Planejamento

Índios yanomami fazem ritual para ‘enfraquecer’ a alma de Jucá e comemoram sua exoneração de pasta

Ricardo Galhardo - Enviado especial / BOA VISTA, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2016 | 05h00

Na sexta-feira 13 de maio, parte das 230 comunidades yanomami de Roraima dançou o xapiri, ritual xamânico usado pelos indígenas para interagir com os espíritos de seus antepassados. Desta vez os yanomami tinham um objetivo concreto, “enfraquecer a alma” do senador Romero Jucá (PMDB-RR), nomeado na véspera ministro do Planejamento no governo Michel Temer.

“Ele é o inimigo número um dos povos indígenas do Brasil”, disse ao Estado o yanomami Dário Kopenawa, na terça-feira, na sede da Associação Hutukara, em Boa Vista. “Ontem teve pajelança para comemorar a queda”, completou.

A aversão dos yanomami ao ministro licenciado do Planejamento remonta ao primeiro escândalo envolvendo o senador.

Presidente da Funai entre 1986 e 1988, no governo José Sarney, ele foi acusado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) de autorizar indígenas a vender madeira em troca de propina. O processo foi extinto no início da década de 1990.

Garimpo. Já como governador biônico de Roraima, entre 1988 e 1990, Jucá autorizou o garimpo em território yanomami. Kapenawa estima que 40 mil garimpeiros invadiram a área levando à morte de 2,5 mil indígenas. O caso foi registrado pela Comissão Nacional da Verdade.

Hoje a Boa Vista Mineração, pertencente a Marina Jucá, filha do senador, tem oito pedidos de licença de exploração que atingem território indígena. Segundo a Funai, o objetivo é “reservar” os direitos. Kopenawa calcula que pelo menos 3 mil garimpeiros estão hoje ilegalmente em território yanomami. Em 2015, a PF deflagrou a operação Warari Koxi que estimou em R$ 1 bilhão o valor movimentado pelo garimpo criminoso em Roraima.

Por meio de sua assessoria, Jucá considerou as indagações do Estado sobre o caso “descabidas” e disse que todas ações foram arquivadas pela Justiça.

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No senado, duelo de 'bandidos'

Romero Jucá tem rivalidade na casa com Telmário Mota, senador do PDT pelo mesmo Estado que o peemedebista

Isabela Bonfim / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2016 | 05h00

No Congresso Nacional, a rivalidade do senador Romero Jucá (PMDB-RR) com um adversário político ganhou proporção nacional durante a semana passada. Após a divulgação de áudios em que o então ministro do Planejamento fala em “estancar a sangria” da Operação Lava Jato, o senador Telmário Mota (PDT-RR) entrou com um pedido de cassação contra o senador.

Ao anunciar no plenário a representação contra Jucá, Telmário corrigiu colegas que disseram que os dois pertenciam ao mesmo Estado. “Ele é de Pernambuco, com todo o respeito aos pernambucanos. Mas ele caiu lá de paraquedas e chegou levando a corrupção na mala. Foi um desastre o que Sarney fez com Roraima”, disse em referência ao ex-presidente José Sarney, que nomeou Jucá governador de Roraima em 1988, quando o território se tornou de fato uma unidade federativa.

Ao saber do pedido de cassação, Jucá chamou Telmário de “bandido” na tribuna durante sessão conjunta do Congresso Nacional e atacou a mulher do adversário, a médica Suzete Oliveira, que responde a processo na Justiça.

Eleito em 2014, Telmário está em seu primeiro mandato como senador, diferentemente de Jucá, que ocupa a cadeira desde 1995. Os dois chegaram a se enfrentar nas eleições de 2010, quando Telmário foi derrotado. “O PMDB, que tem uma história com Ulysses Guimarães e Teotônio Vilela, coloca exatamente um rato de navio para ser o seu presidente. É o PMDB cavando a sua sepultura, entregando o seu galinheiro a essa verdadeira raposa”, afirmou Telmário, no início de abril, quando Jucá assumiu a presidência do PMDB.

Telmário usa suas raízes indígenas e origem humilde para se alicerçar politicamente como um ponto contrastante à família Jucá no Estado.

Além de ter sido governador, Jucá apadrinhou ex-mulher, Teresa Surita (PMDB), que foi deputada federal e eleita quatro vezes prefeita de Boa Vista. O filho, Jucazinho, é secretário de Saúde do município, nomeado pela mãe. A família tem fortes laços com os meios de comunicação da região. Duas afiliadas locais de TV pertencem ao clã Jucá.

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