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A política moderna e os tatus de Brasília

O Congresso, gostemos ou não dele, é espelho do que somos, expressão de nossas escolhas

João Gabriel de Lima, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2020 | 03h00

Leandro fez as contas, em conexão direta com Tabata e Talita. Alessandra criou a campanha, Douglas e Caio mobilizaram contatos, José mergulhou nos cadastros do governo.

Tabata é Tabata Amaral, deputada federal pelo PDT-SP. Talita Nascimento é sua chefe de gabinete. Douglas Belchior, Alessandra Orofino, Leandro Ferreira, José Moroni e Caio Magri representam grupos da sociedade civil, de diferentes matizes políticos – da Coalizão Negra por Direitos, uma reunião de coletivos, ao Instituto Ethos, que congrega empresários. Em conjunto, eles ajudaram a colocar de pé – e depois aperfeiçoaram – o auxílio emergencial.

A desconfiança em relação aos políticos, especialmente os do Legislativo, era forte na época das Diretas-Já. Fazia sentido. Vivíamos uma ditadura que matava, torturava e censurava, os governadores eram nomeados e o Congresso não era integralmente escolhido pelo povo – havia a figura do “senador biônico”, apelido inspirado na série Cyborg.

O “nós e eles” entre eleitores e parlamentares não se aplica mais. Deputados e senadores são como os tatus da piada capiau. Tatu não sobe em árvore. Se aparece num galho alto é porque alguém o pôs lá. Da mesma maneira, se um político ocupa uma cadeira na Câmara ou no Senado, é porque chegou lá com o nosso voto. O Congresso, gostemos ou não dele, é um espelho do que somos, expressão de nossas escolhas.

Desqualificar o Legislativo é velho como o Cyborg, é algo do tempo em que Lobão só fazia barulho quando tocava bateria na Blitz. Felizmente, vários cidadãos – e várias organizações da sociedade civil – já atentaram para o jeito moderno de fazer política. Se o Congresso é a nossa casa, devemos estar próximos a ele. 

A proximidade começa – mantra desta coluna – com a junção entre política e conhecimento. Os cálculos feitos por Leandro Ferreira, da Rede Brasileira de Renda Básica, foram fundamentais para viabilizar o auxílio emergencial de R$ 1.200 para mães chefes de família. Outro programa-chave da pandemia, o seguro de vida para profissionais de saúde, contou com a expertise da economista Letícia Nunes, do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, organização fundada pelo economista Armínio Fraga

A ponte entre conhecimento e política é essencial, mas não basta, segundo Alessandra Orofino, diretora da rede Nossas: “É preciso entender o funcionamento do Congresso, e também fazer a voz da sociedade civil chegar aos parlamentares”. No caso do auxílio emergencial, 163 organizações se mobilizaram. Criaram um abaixo-assinado com 700.000 assinaturas, e entupiram as caixas de e-mails dos parlamentares com mensagens de potenciais eleitores.

Duas notícias boas para você, que anda descrente da política. Existe, sim, um debate sério sobre os problemas do Brasil, em universidades e centros de pesquisa. E existe uma sociedade civil organizada e atenta a esse debate. O caso do auxílio emergencial é um exemplo. No minipodcast da semana, Alessandra Orofino dá uma ideia de como podemos exercer nossa cidadania.

Douglas, Alessandra, José, Letícia, Leandro e Caio mostram o caminho da política moderna: interagir com os representantes que elegemos, ajudar a colocar projetos de pé, fiscalizar sua implantação. Os tatus de Brasília estão lá para nos servir.

PARA PARTICIPAR

As organizações da sociedade civil que coordenaram o grupo do auxílio emergencial são:

Rede Brasileira de Renda Básica

Coalizão Negra Por Direitos  

Instituto Ethos 

Nossas

Instituto de Estudos Socio-Econômicos

A organização que colaborou com o seguro de vida para profissionais de saúde:

Instituto de Estudos para Políticas de Saúde

Mini-podcast de Alessandra Orofino

joaogabrielsantanadelima@gmail.com

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