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A política é show

Não são só três os apresentadores de TV pré-candidatos a prefeito de São Paulo. Há Celso Russomanno (Patrulha do Consumidor, na Record), José Luiz Datena (Brasil Urgente, na Band) e João Doria Júnior (Show Business, na Band). Mas a conta chega a quatro se lembrarmos que, dez anos antes de virar deputada, Marta Suplicy ficou famosa como a sexóloga do TV Mulher, na Globo. A eleição virou show, com alguns calouros. “É saudável”, diz Doria. Para quem? O eleitor deve dizer: “Cansei”.

José Roberto de Toledo, O Estado de S. Paulo

03 de agosto de 2015 | 03h00

Sempre que esgotam sua credibilidade, os partidos tentam se reciclar indo atrás da celebridade que converta ibope em votos. Com a desconfiança em relação às agremiações partidárias batendo recordes, a mania virou vício. A apelação vem desde o ex-PFL cortejando Silvio Santos na eleição presidencial de 1989, passa pelo PR plantando Tiririca em 2010 e o PTC vestindo Clodovil. Mesmo sem contar ídolos locais, chegam às dezenas os famosos da televisão cooptados por legendas de todo o zoo ideológico.

Até as de esquerda, com o PSOL, têm seus próprios astros da TV, como o ex-BBB Jean Wyllys. Algumas celebridades pegam carona na eleição para tentar restaurar o prestígio decadente e aumentar o preço de seu cachê. Mas várias cavam espaço próprio na política, reorientam a carreira e viram porta-vozes de causas e segmentos sociais. É Russomanno e o consumidor, é Wyllys e o movimento LGBT, é Romário e os portadores de deficiência - o ex-boleiro também se especializou em dar chapéus nos cartolas da CBF/Fifa.

Sabe-se que a celebridade graduou-se como político quando seu sucesso nas urnas cresce em função de sua atuação parlamentar - em vez de diminuir à medida que se afasta dos programas de TV. São histórias como as de Wyllys, que multiplicou por dez a sua votação entre 2010 e 2014; de Romário, que de deputado virou senador; de Marta Suplicy, que elegeu-se prefeita e senadora; de Russomanno, que bateu seu próprio recorde de votos em 2014.

O problema é menos dos candidatos do que das estruturas partidárias. Quando os galhos da velha e arraigada árvore político-genealógica brasileira - cheia de filhos, netos e bisnetos pendendo dos sobrenomes - não conseguem mais produzir frutos que atraiam o eleitor, os oligarcas tentam adubá-los com celebridades. Não raro, brotam mutações espetaculares, cacarecos humanos a contribuir para a folclorização das eleições.

Assim a política brasileira evolui da farsa para a tragédia até virar piada. Este ano, o sistema eleitoral bateu 33 pontos numa escala de prestígio junto à opinião pública que vai até 100. É um número que o Ibope traduz como “quase nenhuma confiança”. Por seu próprio mérito, os partidos políticos têm metade disso: 17. Tire o “quase” da frase anterior para compreender o significado.

É improvável que a candidatura de um apresentador célebre por combater o crime com chavões vá reverter essa tendência. Ainda mais se lançada por um partido que tem Paulo Maluf como um dos filiados mais honestos (dos poucos não envolvidos na Lava Jato).

Candidatos famosos costumam sair na frente das pesquisas porque estão frescos na cabeça do público, além da curiosidade que provocam no início. Mas estão pouco acostumados ao escrutínio diário e às cobranças de uma eleição majoritária. Na maioria das vezes, acabam escorregando em suas fragilidades, como Russomanno, que se desmanchou na reta final da disputa de 2012.

Até lá, porém, perdem-se meses com factoides. O melhor é imitar os gringos. Nos EUA, a celebridade que virou pré-candidato desta vez é o milionário Donald Trump. Aprendiz de presidente, Trump é um bom garoto-propaganda de si mesmo: se comunica por frases de efeito e paga para provocar polêmica. Assim, lidera as pesquisas entre os republicanos (e também a rejeição). Mas as notícias sobre sua candidatura só saem na seção de entretenimento.

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