A polêmica união de Adeodato com Mariazinha

Adeodato tinha imagem de mau mesmo em família; Mariazinha era mulher de silêncio

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 de fevereiro de 2012 | 20h29

Ninguém sabe precisar quando Adeodato, o último chefe caboclo, passou a se relacionar com Mariazinha, mulher de seu antecessor e compadre, Chiquinho Alonso. O que se sabe é que Adeodato resolveu matar a primeira esposa, Maria Firmina, quando foi alertado por Elias de Moraes que ela o traía com o rebelde negro Joaquim Germano. A relação pública de Adeodato com Mariazinha foi mal recebida pelos rebeldes, embora ela fosse viúva, observa o pesquisador Paulo Pinheiro Machado. Por serem compadres, os dois não podiam ficar juntos. Era uma cabocla considerada bonita pelos "irmãos".

 

Após a prisão de Adeodato e o final dos combates, Mariazinha, ao lado do novo marido e os filhos, passou a viver num sítio na área do antigo reduto de Santa Maria. Ela morreu nos anos 1960, com 65 anos. De Mariazinha ou Mariquinha não ficaram fotografias nem depoimentos. Por muitos anos, ela sofreu represálias na região pelo envolvimento com o "último jagunço".

 

 

Neto de Mariazinha, Atair Meirelles Cruz, de 65 anos, fala da avó, Maria. "É outra que sabia tudo sobre a guerra. Minha avó Mariazinha mãe de minha mãe, Catarina, foi casada com o Adeodato", diz. "Mas ela nunca gostou de falar, sempre foi uma mulher de silêncio." Mariazinha, ou Mariquinha, como pesquisadores a tratam, era casada com o comandante-geral dos jagunços, Chico Alonso. Após a morte de Alonso, ela foi morar com Adeodato. Depois da prisão de Adeodato, Mariazinha se escondeu com a família em ranchos improvisados na mata, até voltar para as ruínas de Santa Maria. Mais tarde, ela se casou com Mateuzinho Meireles Prestes, pai de Catarina e avô de Atair.

 

Mesmo em família, Adeodato deixou uma imagem de homem mal. "Ele era muito carrasco, matava sem precisar", afirma Atair. Os depoimentos de prisioneiros civis tomados em circunstâncias não muito claras pelos militares são unânimes em afirmar que Adeodato cometeu uma série de crimes, matando inclusive companheiros que colocavam em dúvida a sua autoridade. No clássico "Lideranças do Contestado", Paulo Pinheiro Machado sustenta que o líder partiu para a violência num momento complicado para o movimento rebelde. Machado ressalta que o Exército usou politicamente a imagem de homem mal atribuída a Adeodato.

 

Atair e a mulher Natalícia moram num barraco a poucos metros da igreja. O único filho já é casado e vive no centro de Timbó Grande. Com cerca de dez alqueires, o sítio do casal está cercado por plantações de pinus. Sitiantes descendentes de rebeldes do Contestado venderam suas posses para a Juliana, como os moradores chamam uma empresa produtora de madeiras.

 

No sítio, Atair planta feijão e milho e cria bois. Ele tinha 15 cabeças. No último ano, sete morreram de "peste", conta. É assim que ele se refere, com orgulho ferido, à fome enfrentada pelos animais no período da seca. A estiagem secou o capim e as ervas-de-sapo, alimentos dos animais.

 

Ele lamenta que um vizinho, Pedro Jacó, já idoso, morreu há pouco tempo. "Pedro Jacó poderia dizer muita coisa da guerra. Viveu no reduto. Ele foi até o fim, era guerrista", conta. "Pedro Jacó contava que ali, mais embaixo, morreu gente demais. Ninguém varava a cavalo, só a pé, pois eram muitos mortos no chão, impedindo a passagem nas estradas", relata. "Mulher prisioneira era arrastada pelo pé. Já o homem era pelo pescoço."

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