Capítulo 22

A pergunta de Santos Cruz para Bolsonaro

Não faltam planos ao presidente para voltar ao passado

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2019 | 09h59

Caro leitor,

Nos anos 1970, quando Jair Bolsonaro era um tenente, a União Soviética comemorava a revolução com uma grande parada militar na Praça Vermelha. Moscou exibia seu poderio bélico. As tropas eram seguidas pelos tanques T-72 e pelos veículos pesados com mísseis intercontinentais. Tudo se desenvolvia diante do secretário-geral, Leonid Brejnev, do ministro da Defesa, Dmitri Ustinov, e dos convidados do PCUS. O arsenal soviético era suficiente para destruir o mundo tantas vezes a ponto de dissuadir qualquer ataque americano. Vivia-se o equilíbrio do terror atômico, a última linha de defesa da superpotência.  

Talvez Bolsonaro tenha em sua memória os tais desfiles. Talvez se lembre das paradas do regime militar brasileiro. Datas comemorativas têm a função de representar a memória de valores que são caros às Nações e aos grupos, mantendo sua coesão. Foi assim no 7 de Setembro de Bolsonaro. Suas armas estavam todas ali. Havia empresários que o sustentam, generais designados para todo e qualquer cargo e áulicos que incensam o presidente em seus piores momentos. O leitor viu que o desfile se aproximava do fim quando - a exemplo dos russos - Bolsonaro exibiu-se com a sua mais importante arma: Sérgio Moro.

Para os militares, o ministro da Justiça é a última linha de defesa do bolsonarismo. Sem ele, o capitão retornaria ao mundo das redes sociais, que serve para criar celebridades e ajuda eleger até um presidente, mas é incapaz de permitir a quem quer que seja governar. Ali todos falam ao mesmo tempo, sem autoridade ou decisão. Livres para ofender, agredir e expulsar. Em A República, Platão vê no excesso de liberdade a danação da democracia, que morre por seus próprios desatinos. Afogada, não pelo sangue, mas pelo ridículo.

Ou como alertou no Twitter o general Santos Cruz, ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo, escrevendo um resumo da atuação de Bolsonaro e de seus ministros na crise sobre a Amazônia: “Confronto inicial, reações, cobiça, riquezas, combates imaginários, planos de internacionalização, apelos emocionais, má-fé, ignorância, acusações, ONGs, incêndios, ‘agradecimento’..." E, enfim, a pergunta do general: “Qual o nosso plano para a Amazônia?”

O plano de Bolsonaro parece ser apenas o de fazer o tempo voltar atrás. Diante do desenvolvimento sustentável, pensa em abrir estradas na Amazônia como Medici. Ressuscita o fantasma vermelho na política como o almirante Pena Boto. Nas relações externas, tem a ajuda do general Augusto "Giap" Heleno para lembrar da Conferência de Berlim, de 1885, e combater “o colonialismo francês”. Faltou citar Frantz Fanon e seu Les damnés de la Terre. Talvez o presidente o faça na ONU, como Lula, em 2004.

Os militares buscavam a reconciliação após a redemocratização. O general Leônidas Pires Gonçalves disse aos pesquisadores Maria Celina D’Araújo, Gláucio Soares e Celso Castro que não podia ficar perdendo tempo com o passado. Quando ministro do Exército, ele advertia os subordinados: “Olha a mulher de Lot. Virou estátua de sal”. Bolsonaro devia ter ouvido o general. Em vez disso, comemorou o 31 de Março. Celso Castro conta mais sobre o tema em seu livro Exército e nação.

Ele mostra que, desde 1995, não havia uma nota conjunta dos chefes militares sobre o 31 de Março. A iniciativa de acabar com essa tradição fora do ministro da Marinha Mauro César Rodrigues. Ao lado do colega da Aeronáutica, Mauro Gandra,eles convenceram o comandante do Exército, Zenildo Lucena. “Dissemos que tínhamos de esquecer, virar a página”, justificou-se o brigadeiro Gandra. Um ano antes, Zenildo criara o Dia do Exército (19 de abril), para lembrar a 1.ª Batalha de Guararapes, em 1648. Queria comemorar o nascimento da nacionalidade e do Exército. Unia-se a Nação em vez de dividi-la.

Falta agora Bolsonaro comemorar o dia 27 de novembro, dia da derrota da rebelião comunista de 1935. Fernando Collor esvaziara a dada ao se tornar, em 1990, o primeiro presidente a não comparecer à cerimônia no Rio. Em 1999, foi a vez do general Gleuber Vieira se tornar o primeiro comandante do Exército a não aparecer no evento. Gleuber conhecia Heráclito. E citou o filósofo: “Não nos prendamos ao passado, voltemo-nos para o futuro – afinal, cada vez que entramos no rio histórico do tempo, outras são as águas que tocamos”. O comandante concluiu: “Sabemos que edificar o amanhã significa semear em terras férteis, jamais despertar fantasmas. É isso que nos mantém acima das ideologias, das desavenças e dos ressentimentos”.

Contra tudo que o que os chefes militares fizeram nos últimos 30 anos, Bolsonaro e alguns dos generais do Planalto esperam encontrar as águas do passado no rio em que se banham. Mas lá não estarão Medici, Costa e Silva, Brejnev ou Ustinov. Nem Gleuber ou Leônidas. A segurança do passado não os aguardará na margem. Nem a esperança do futuro. É que a discórdia e o menosprezo nascidos do ressentimento fazem do presente apenas uma estátua de sal.  

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.