A paixão pelas operações de risco e a quebra da bolsa

Cercado de escândalos, Nahas construiu império de luxo e ostentação

Renée Pereira e Patrícia Cançado, O Estadao de S.Paulo

09 de julho de 2008 | 00h00

A história do investidor Naji Robert Nahas, um libanês que se naturalizou brasileiro, é recheada de escândalos, perseguições policiais e pendências na Justiça. Por outras duas vezes, além de ontem, ele foi perseguido pela Polícia Federal e pela Interpol, e numa delas acabou preso em regime domiciliar. Nada que tenha sido suficiente para intimidar o empresário a se aventurar em operações arriscadas, uma característica que sempre o acompanhou.Personagem principal do maior solavanco já sofrido pelas bolsas brasileiras, ele se tornou nacionalmente conhecido depois de ser acusado pela quebra da Bolsa de Valores do Rio, em 1989. Naquela época, costumava ganhar dinheiro numa operação extremamente arriscada. Conforme as acusações, Nahas, que chegou ao Brasil em 1969 com US$ 50 milhões, pegava dinheiro emprestado em bancos e comprava ações na bolsa, ganhando com a alta dos papéis e também com a inflação elevada.Segundo analistas, a operação de Nahas, no entanto, só se sustentava na alta da bolsa. Quando o mercado inverteu a tendência, Nahas entrou em apuros. Teve de vender as ações por um preço baixo para quitar os financiamentos nos bancos e embolsar o prejuízo.As operações provocaram movimento de quebra geral, que resultou na falência de seis corretoras e perdas calculadas em US$ 400 milhões. Ele foi acusado de manipular o mercado para inflar artificialmente o preço das ações, o que lhe rendeu pena de 24 anos de prisão e multa de R$ 730 mil, segundo dados do mercado. Teve de liquidar seu grupo empresarial, o Selecta, com cerca de 28 empresas.A decisão, porém, foi revertida. Em 2004, a Justiça Federal do Rio o inocentou de crime contra o sistema financeiro e a economia popular. A vitória foi comemorada num restaurante parisiense ao lado de ex-campeões do torneio de tênis de Roland Garros. O especulador fala sete línguas e não abre mão das melhores grifes. Além de vinho, tênis e charuto, é fanático por gamão. Na sua época áurea, gostava de ostentar lanchas, helicópteros, pinturas impressionistas e um luxuoso apartamento em Paris.Nem mesmo nos piores momentos, quando foi caçado pela PF brasileira e pela Interpol, ele deixou de curtir extravagâncias. Em 1997, enquanto o juiz decidia pela sua condenação (preliminar), ele estava em Paris acompanhando grupo de investidores estrangeiros. De lá seguiu para o Egito, onde assistiu a óperas, visitou pirâmides, passeou de barco e, depois, resolveu ir ao Líbano. Nos últimos tempos, Nahas atuava mais como consultor de grandes empresas. Uma delas foi a Telecom Itália. Esse trabalho lhe rendeu uma mala de dinheiro (R$ 3,5 milhões, declarados pelo próprio) e novas complicações. Um diretor da empresa na Itália disse à Justiça daquele país que teria repassado o dinheiro a Nahas para que ele pagasse propinas a políticos brasileiros. O especulador é um homem bem relacionado no Brasil e no exterior. Antes de ser preso, estava na Arábia Saudita, diz um vizinho, empresário e credor de Nahas. É amigo do empresário sírio Wafic Said, ligado à família real saudita, do sultão de Brunei, dos duques de Belfort e dos príncipes de Kent. O nome de Nahas voltou à mídia recentemente, após a venda de um terreno na Avenida Faria Lima. A Justiça determinou a penhora do lote de 120 mil metros quadrados vendido no fim de abril ao Grupo Victor Malzoni, a Construtora Company e a Brascan Residential Properties. A decisão foi movida por um antigo credor de Nahas, a Química Paulista (que pertence à família Audi), que queria pagar dívida que hoje já soma R$ 136 milhões.Embora o vendedor fosse a BlueStone, fundo de investidores do Catar com sede no paraíso fiscal da Ilha da Madeira (Portugal), a Justiça concluiu que o bem nunca havia saído do patrimônio de Nahas. Na sentença, o juiz disse que o investidor "pulverizou seu patrimônio por meio da utilização de inúmeras sociedades, ensejando patente confusão patrimonial". Em diversas ocasiões, o terreno foi dado para garantir dívidas pessoais de Nahas. Apesar de várias tentativas para derrubar a decisão da Justiça, o terreno continua penhorado.

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