A paga da praga

É escapismo o PSDB atribuir à ironia do destino ou a armadilhas de intenções políticas o embaraço da apresentação da denúncia contra Eduardo Azeredo, Walfrido Mares Guia e mais 13 acusados de desviar dinheiro público para o caixa 2 da campanha do tucano à reeleição no governo de Minas Gerais exatamente no dia em que o partido fazia a sua festa do "novo rumo".Mais realista é reconhecer que foi a paga da praga rogada pelos próprios tucanos contra si há quase dois anos, quando lhes faltou examinar com clareza os fatos e imprimir firmeza aos atos adequados à ocasião.Titubearam, disfarçaram, optaram por flexibilizar valores, adaptando os princípios éticos às suas conveniências partidárias, e acabaram por deixar passar a grande chance que teriam de se diferenciar do adversário, então sentado na berlinda.Ali poderiam ter repudiado as práticas em suas hostes, isolado o acontecido em Minas do restante do partido e tocado em frente o dever de oposição.Mas não, preferiram defender o senador Azeredo e sua campanha (cujo esquema envolveu muitos partidos nas eleições proporcionais, inclusive o PT) com os mesmíssimos argumentos utilizados pela cúpula petista e governista para defender os seus, "amarelaram" diante da confissão de Duda Mendonça de que havia recebido dinheiro de forma ilegal para fazer a campanha presidencial de Luiz Inácio da Silva em 2002, refugaram depois no julgamento dos sanguessugas - tudo indica em troca da serenidade do PT em relação a Azeredo -, esqueceram o caso do dossiê tucano na campanha de 2006 e ficaram ombro a ombro com os protagonistas do escândalo do mensalão.Agora, ao se concretizar a denúncia de que os métodos aplicados pelo PT tiveram origem em Minas, se houve alguma influência da sina não foi no sentido do deboche, mas da seriedade.O destino falou sério com o PSDB. Se puderem olhar com crueza o quadro, os tucanos perceberão que a oportunidade da discussão sobre o futuro do partido se encaixa na medida da apresentação da denúncia do procurador-geral da República.Afinal, o nó que ata as ações do PSDB é o mesmo que o impediu de consolidar uma atitude oposicionista e agir com nitidez na ocasião: falta de comando, ausência de rumo, carência de lideranças com densidade política de alcance nacional, abundância de interesses individuais/regionais dispersos e divergentes, insuficiência de músculos, excesso de vacilação, autoconfiança no chão.Não adianta, portanto, choramingar, dizendo que as situações são diferentes e que, se Azeredo como beneficiário do esquema foi denunciado, o presidente Lula também deveria ter sido.Para começo de conversa, isso não é argumento. Pelo menos não é que se preze, pois equivale ao "todo mundo faz", "eu não sabia de nada" a que Lula recorreu para se defender e - com sucesso no resultado, mas a poder de concessões à leniência com o crime no processo - sair eleitoralmente ileso da história.E para encerrar a conversa, o essencial nos dois casos não é o destino dado ao dinheiro. O fundamental é sua natureza, pública, e os métodos para obtê-lo, desvio mediante contratos fraudulentos nas administrações estadual e federal. Isso só tem um nome: corrupção.Eduardo Azeredo não foi reeleito. O PT também não teria montado no aparelho de Estado a quadrilha que o procurador Antonio Fernando de Souza o acusa de ter montado se Lula tivesse perdido a eleição.Não se trata de um detalhe, é claro. Há distância abissal entre um caso e outro. Mas o PSDB perdeu a chance de traçá-la com risca de giz e dar sua dimensão exata lá atrás, quando não soube, não quis ou não pôde marcar a diferença.Agora paga o preço e já está grandinho o suficiente para perceber a razão.Bico justoPassou batido para a platéia, mas não para o governador Aécio Neves. Quando Fernando Henrique disse, em seu discurso no congresso tucano, que a alteração feita na sistemática de exame das medidas provisórias, em 2001, foi "para muito pior", Aécio nem levantou os olhos, mas registrou com um riso amarelo o desagrado.Além de presidente da Câmara na época, o mineiro patrocinou, negociou, aprovou e até hoje defende a mudança que, segundo FH, teve como conseqüência nefasta a constante paralisação da pauta do Congresso.CalendasDepois dos sindicalistas, agora são os partidos aliados ao governo que querem "rediscutir" o prazo de 30 de novembro estipulado pelo presidente Lula para o envio da proposta de reforma tributária ao Legislativo.Da última vez que "a base" pediu a suspensão de uma reforma foi em 2004. Para apoiar a pretensão do então presidente da Câmara, João Paulo Cunha, de se reeleger no ano seguinte, os partidos pediram a retirada de pauta da reforma política. Até hoje.

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