Ed Ferreira/AE
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‘A ordem é não mudar o mínimo no Senado, diz Gilberto Carvalho

Para ministro, eventuais emendas atrasariam adoção dos R$ 545 e criariam imagem de que ‘a Câmara pagou o pato’

Tânia Monteiro e Leonêncio Nossa, de O Estado de S. Paulo

18 de fevereiro de 2011 | 23h00

BRASÍLIA - O Planalto vai jogar duro e exigir a aprovação no Senado do salário mínimo de R$ 545 sem a inclusão de "cacos" ou "emendas" no projeto aprovado pelos deputados. O governo não admite, em hipótese alguma, que o projeto volte a ser apreciado pelo plenário da Câmara, atrasando a entrada em vigor da nova política do piso.

 

"Não queremos criar a imagem de que a Câmara paga o pato e depois a gente facilita no Senado", disse nesta sexta, 18, ao Estado o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, responsável pela negociação com as centrais sindicais. Carvalho afirmou que o Planalto espera um estudo do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para apresentar, logo após a votação no Senado, um projeto de correção da tabela do Imposto de Renda em, no mínimo, 4,5%, mas esse porcentual pode ser maior.

 

O governo pode recuar no Senado e ceder a pressões por um salário mínimo maior?

Não queremos favorecer nem temos interesse em criar a imagem de que a Câmara paga o pato e depois a gente facilita no Senado. Não vamos fazer isso. É o mesmo tratamento, o mesmo apelo que fizemos na Câmara. A orientação dada ao líder do governo no Senado e aos líderes dos partidos aliados é de não haver mudança no texto. Um salário de R$ 545 é o que o governo considera possível. Estamos em ano de contenção. Era importante dar esse sinal de responsabilidade. Temos uma política de valorização do salário mínimo e, portanto, não se trata de qualquer arrocho ou contenção, mas cumprir um acordo que foi uma vitória das centrais.

 

O senador Renan Calheiros (PMDB-AL) estava querendo colocar no projeto do mínimo "caquinhos", como ele mesmo chamou as emendas.

Faremos um apelo ao senador Renan e a todos os senadores que se evite qualquer medida que faça o projeto voltar à Câmara. O nosso cuidado é, agora, evitar novidades, "cacos", emendas que façam o projeto voltar para a Câmara.

 

O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, está com o cargo em risco?

Não dá pra dizer isso. Seria o tipo da reação abrupta. Só que ele perdeu internamente porque a vertente do Paulinho ganhou. Mas nós não podemos com isso dizer então, olha, o Lupi está fora. Precisamos conversar com o PDT e saber se isso foi um gesto de um momento ou é uma atitude de conjunto do partido e saber, em outros projetos, como isso vai se dar. Se houver uma atitude de oposição, aí tem de mudar a relação mesmo, evidente.

 

Vai sair o reajuste de 4,5% da tabela do Imposto de Renda?

Assim que terminar a votação do mínimo, o governo vai discutir com mais cuidado esta questão. Se a Fazenda disser e a presidenta concordar que não tem jeito e é 4,5%, a gente só vai anunciar para as centrais. Não vamos fazer cena. Se a gente sentir que tem margem, a gente chama as centrais e discute até onde dá para chegar. Se é possível mexer nos 4,5%. Abaixo, não. Acima, talvez, depende, vamos analisar.

 

As centrais apostaram em uma presidente insegura ou imatura ao pedir um salário maior e podem, agora, na gestão Dilma, buscar mais espaço?

As centrais cumpriram o papel delas. No governo Lula houve marcha pelo salário mínimo. Eu disse para eles (sindicalistas) nesta mesa: "Não vamos queimar navios nem pontes nessa questão, um reajuste de R$ 560, porque temos uma longa pauta". A intervenção do ex-presidente Lula foi um pouco pedagógica neste sentido. Ele atuou fortemente para dizer que, se estivesse no governo, faria igualzinho ao que a presidenta Dilma está fazendo.

 

O que fazer com os traidores?

Não se pode ter uma atitude nem muito repentina, nem imatura com quem não votou com o governo. Tem de ver todos os casos e nem pode ser relação do tipo toma-lá-dá-cá.

 

O PMDB vai querer cobrar a fatura desta votação e em outras. Como conter esse ímpeto?

A coisa pode ser olhada do lado fisiológico, mas eu prefiro olhar do outro lado. O PMDB tem o vice-presidente, aumentou a sua participação política neste governo e, por isso, é natural que ele ocupe postos de responsabilidade e governe conosco. Esta questão da participação no governo é naturalmente tensa. Mas esse negócio de dizer: "Nós votamos 100% e está aqui a fatura"... Não é assim que funciona e a presidenta deixou isso muito claro. É um processo de discussão.

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