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Laura Karpuska
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A Ordem do Dia*

A reação do empresariado brasileiro diante do governo Bolsonaro sugere que a política do medo funciona e explicita que o establishment carrega pouco custo em apoiar projetos que flertam com o autoritarismo

Laura Karpuska, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 14h51

A reação do empresariado brasileiro diante do governo Bolsonaro sugere que a política do medo funciona. Os empresários têm medo de criticar um governo que ainda conta com mais de 20% de apoio popular e com o apoio dos partidos de centro – que garantem alguma governabilidade em troca de emendas orçamentárias e cargos. Uma crítica hoje pode ser um não amanhã. Além disso, a reação também explicita que o establishment carrega pouco custo em apoiar projetos que flertam com o autoritarismo e que corroem as instituições do país.

No dia 17 de julho de 2015, o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), anunciou que passaria a ser oposição ao governo de Dilma Rousseff. Desgastado com investigações na Lava Jato e com descontentamento popular crescente em relação ao governo, era dado início a um processo que culminaria no impeachment da presidente Dilma.

Em março de 2016, pulavam manifestos de empresários pedindo pelo impeachment da presidente. A Fiesp pendurou uma faixa em seu prédio na Avenida Paulista em São Paulo com o pedido de “Renúncia Já”. A CNI dizia que o cenário brasileiro era um “espetáculo deprimente”, pedindo “um basta”. 

Hoje é diferente. O empresariado brasileiro vem se pronunciando, como comentei na coluna de 13 de agosto, “Não tá no preço”. Mas, as manifestações parecem relativamente cautelosas. Não há “basta”, não existe um “tchau, querido” e nem pedidos de renúncia e impeachment. Os empresários se dizem a favor da democracia e da paz entre os Poderes.

Os empresários se mostram menos vocais e objetivos contra os descalabros do governo Bolsonaro do que com os erros cometidos pelos seus antecessores. De um lado, há empresários que parecem ainda simpatizar com o jeito autoritário do presidente. Há também os que podem não simpatizar, mas buscam pragmaticamente ficar do lado de quem permite a apropriação do Estado.

Há também, imagino, aqueles que têm medo. Se sentem intimidados pelo governo. Saem em defesa da democracia, mas ficam na retaguarda em falar abertamente que já basta um governo como este. O medo não é descabido. Nas últimas semanas, vimos, por exemplo, que a Caixa e o Banco do Brasil ameaçaram deixar a Febraban depois que a federação bem se manifestou em apoio da harmonia entre os Poderes. Um manifesto como este só existe e só impressiona quando as instituições estão, de fato, trêmulas.

O Brasil, e o establishment econômico, escolheu rejeitar mais governantes que cometeram crimes contra a economia, como foi o caso de Dilma e de Collor, ou presidentes que subiram ao poder depois de um impeachment, como foi o caso de Temer, do que um governo que atenta contra a vida e as instituições. E, mesmo quando se manifestam contra a derrocada democrática, o fazem de forma relativamente tímida. O descasamento entre benefícios individuais e custos coletivos fica evidente na atuação do establishment brasileiro.

Para alguém que nasceu no Brasil democrático, como eu, viver uma situação em que empresários redigem um documento se dizendo a favor da democracia é um pesadelo impensável. Eu cresci e vivi tomando a democracia como certa. Acabo de ouvir Bolsonaro falando “que se alguém quiser jogar fora dessas quatro linhas (da Constituição), nós mostraremos que poderemos fazer também”. Nunca achei que viveria no Brasil com um presidente que fala coisas do tipo. Mas, nunca achei também que veria tanta indiferença e medo por parte do povo e do establishment diante de ameaças como esta. O sentimento de retrocesso é enorme.

*O título da análise é o mesmo do livro de Éric Vuillard. No romance histórico, Vuillard conta como parte do empresariado alemão apoiou líderes nazistas mesmo os considerando vulgares e medíocres. 

PROFESSORA DO INSPER, PH.D. EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK EM STONY BROOK

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