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A opção pela farmácia

A pouco mais de 20 dias da eleição, as pesquisas mantêm a fotografia de um segundo turno entre as candidatas Dilma Rousseff e Marina Silva, a despeito dos maus resultados na economia e da corrupção avassaladora no governo, espremido entre o mensalão e os escândalos na Petrobrás.

JOÃO BOSCO RABELLO, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2014 | 02h03

Parte da resistência da candidatura de Dilma Rousseff ao ambiente negativo de seu governo é atribuída à decisão estratégica da campanha de incutir o medo na população mais carente com a perda de benefícios sociais, numa versão exitosa da linha derrotada do PSDB na primeira eleição de Lula.

Se é verdade - e tudo indica que sim -, a estratégia deu certo aplicada também a Marina Silva, o que chega a ser surpreendente se considerada sua origem petista e seu compromisso com a pobreza, respaldado pela biografia pessoal e pela recorrente profissão de fé religiosa.

Mas o pouco ou nenhum impacto, até aqui, da corrupção na estatal mais importante do País e da recessão econômica no espírito do eleitor indica que o medo de perder o pouco que tem é maior que a racionalidade.

Tem-se aí um eleitor de resultados - e de poucos resultados -, conformado com o que tem e temeroso de que mudanças sejam ainda piores. Mal comparado, comporta-se diante do quadro do País como o paciente que precisa de cirurgia, mas prefere adiá-la indo à farmácia.

É uma oportunidade para refletir também sobre a qualidade do eleitorado brasileiro em contraponto à cobrança que faz da qualidade dos candidatos. Parece estabelecido um círculo vicioso em que cobranças e promessas satisfazem as partes, excluindo o debate político com base em programas mínimos de governo.

Nesse contexto, temas que falam direto à moral e à emoção assumem o protagonismo na campanha, muito embora a maioria deles diga mais respeito ao Legislativo do que ao Executivo, casos do casamento gay, aborto e legalização das drogas, que não são cobrados aos candidatos ao primeiro.

Não há dúvida sobre a prevalência da linha populista em tal cenário, que dispensa os candidatos de programas e que orienta o eleitor pelo efeito Tiririca : "pior do que está não fica".

Marina Silva ainda apresentou programa genérico, mas, pelo fato de estar redigido, lhe permite cobrar dos adversários os seus. Aécio Neves o faz com mais racionalidade, não vende ilusões e conta com o êxito do PSDB na estabilização da economia nos anos 90.

Já Dilma Rousseff, que mais deveria dizer o que fará por ter levado o País à recessão e representar a continuidade, anuncia apenas "uma equipe nova". É a líder nas pesquisas.

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