Arquivo Pessoal
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Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2016 | 18h06

Na primeira cena, o ex-senador Eduardo Matarazzo Suplicy (PT) é carregado por um grupo de policiais após protestar contra uma reintegração de posse na zona oeste de São Paulo. Corta.

Na sequência, o vereador Andrea Matarazzo (PSD), primo de Eduardo, fecha um acordo político improvável com um de seus desafetos íntimos, a senadora Marta Suplicy (PMDB), ex-mulher de seu primo. Corta.

Estamos em 1881. Uma barcaça aproxima-se da Baía de Guanabara, no Rio. Uma manobra descuidada faz com que 2 toneladas de banha de porco se esparramem no mar. Close em Francesco Matarazzo. Ele parece preocupado.

Mas Matarazzo insistiu na banha de porco. A ideia de vendê-la em lata fez com que o italiano tivesse o primeiro sucesso da carreira – que de tão extensa precisa ser mostrada em flashes rápidos: um armazém de secos e molhados que se transforma em uma fábrica; uma fábrica que se multiplica em centenas de outras, milhares de empregados entrando e saindo e um letreiro onde se lê Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo (IRFM). Corta.

Outra imagem do mar. Estamos no Porto de Santos. Em off, a voz do ex-senador Suplicy: “Se a parceria de Marta e Andrea pode dar certo? Difícil. Uma vez a coligação Suplicy-Matarazzo se deu maravilhosamente bem”.

Na cena, Paulo Cochrane Suplicy, um importante corretor de café, caminha pelo porto. O rapaz presencia o desembarque de uma moça, apaixona-se à moda dos contos de fada, mas é desencorajado por amigos que dizem: “Esquece, é a neta do conde. Vai se casar com um príncipe”. Pois bem, antes que uma Matarazzo se unisse com um Suplicy, muita coisa aconteceu. Filomena casou, engravidou e enviuvou...

Corte rápido para um gabinete da Câmara Municipal. O rosto de um vereador, próximo de Marta e Andrea, não é focalizado. “Ele chegou a dizer para mim que jamais aceitaria. Disse que não tinha como explicar essa aliança para o seu eleitorado. Declarou que era mais fácil uma vaca voar. Acho que tem um dedo do José Serra. Ele é muito próximo do Andrea e está de olho em 2018. Ou a Marta ganha e Andrea vira um vice relevante ou a carreira política dele está em apuros...”

Vamos conhecer uma outra família tradicional. A câmera foca na jovem Marta Teresa Smith de Vasconcellos, filha do industrial Luiz Affonso Smith de Vasconcelos, dono de indústrias de papel. A garota levanta a mão e responde, em francês, a pergunta de uma das professoras do Colégio Sion.

Corte para uma cena de uma festa ao redor da piscina. Ao tentar chamar atenção do jovem Eduardo, Marta o joga na água. Breve passagem de tempo. Bastou um telefonema no dia seguinte para que o namoro engatasse. Marta Teresa transforma-se em Marta Suplicy. Cenas de casamento, nascimento de filhos, fundação do PT, TV Mulher, carreira política, e separação.

De novo na Câmara Municipal, sem mostrar o rosto, um homem conta. “Na época da separação, Andrea chegou a insinuar que a Marta não deveria usar o sobrenome do ex.”

Na cena seguinte, temos o sobrinho-neto de Ciccillo Matarazzo (que, por sua vez, era sobrinho de Francesco Matarazzo), Andrea Matarazzo, graduando-se em Administração de Empresa. Passagem de tempo. No início dos anos 1990, ele trabalha como secretário de Mário Covas. Outra passagem de tempo. Durante o governo Fernando Henrique Cardoso, ele vira embaixador do Brasil em Roma. Em 2005, é subprefeito da Sé na gestão do amigo Serra.

A tela é dividida em duas outra vez. Na metade vermelha, Marta, prefeita e petista. Na metade azul-amarelo, Andrea é da gestão Kassab; nas secretárias de Subprefeitura e Cultura; querendo ser candidato em 2012 e tornando-se vereador.

As diferenças entre o Matarazzo e a Suplicy explodem na rede. Não era raro Andrea usá-la para criticar a então petista. “Quem lembra da cidade esburacada e falida que a Marta deixou, vota #PTnuncamais”; “Quem gosta de Daslu é a Marta.”

Se publicamente a relação era ruim, no seio familiar parecia ser morna. “Depois da morte dos nossos avós, quase não estivemos juntos em almoços ou jantares. Ele não é um primo-irmão. Sempre foi um primo de segundo grau, distante”, disse Suplicy.

A tela se divide novamente. De um lado, Marta deixa o PT e se filia ao PMDB; no outro; Andrea sai do PSDB depois de perder uma disputa interna para João Doria. Marta é a candidata à Prefeitura pelo PMDB; Andrea é o candidato do PSD. Até que...

Corta hoje para Andrea: “Não sou tucano. E Marta não é do PT.” Em outra cena, vemos uma amiga de Andrea e de Marta comemorando a decisão. “Eles têm tradição. Não precisam de política para enriquecer. Já são pessoas ricas”, fala a artista plástica Maria Bonomi, neta de Giuseppe Martinelli, construtor do Edifício Martinelli. “Eles deixaram as vaidades de lado.”

Por fim, voltamos à cena do ex-senador Suplicy sendo levado pela polícia. Nestas eleições, ele será candidato a vereador pelo PT. O filme Matarazzo-Suplicy continua.

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Valmar Hupsel Filho e Karla Spotorno, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2016 | 14h30

SÃO PAULO - Com discurso de críticas ao PT, seu antigo partido, e exaltação à sua nova legenda, a senadora Marta Suplicy foi lançada neste sábado, 30, durante a convenção do PMDB candidata à prefeita de São Paulo ao lado de seu vice, o ex-tucano Andrea Matarazzo (PSD). Sobre o ex-adversário, Marta afirmou que “é um dos homens mais preparados”. Segundo o vereador, eles têm “visão semelhante” sobre a cidade.

“Saí quando constatei que o PT não reunia mais nenhuma condição de mudar os rumos que os seus dirigentes escolheram para o partido e para o País”, disse Marta. “Tenho orgulho de hoje fazer parte de um partido que não carrega a democracia apenas no seu nome, mas que faz desse ideal uma prática cotidiana de tolerância.”

Marta também criticou o atual prefeito Fernando Haddad (PT). “São Paulo não precisa mais de gabinete. Precisa de rua, de uma prefeita que conheça cada canto da cidade”, disse.

Realizada na quadra da Escola de Samba Rosas de Ouro, na Freguesia do Ó, zona norte da capital, a convenção foi em clima de festa. Marta subiu ao palco sambando ao som do samba-enredo da Salgueiro de 1993, com o refrão: “Explode coração na maior felicidade”.

Ao lado de um envergonhado Andrea, Marta continuou sambando ao som do jingle: “Eu vou com Marta, com coragem para mudar” - lema de sua campanha. A escolha da quadra de samba foi para dar clima mais “popular” ao lançamento.

A senadora agradeceu a “coragem e desprendimento” demonstrado por Andrea por “adiar” o sonho de ser prefeito. “Matarazzo é um dos homens mais preparados para participar desta gigantesca tarefa”, disse Marta. 

Andrea, que desistiu de sua candidatura e anunciou na terça-feira passada apoio à Marta, começou seu discurso justificando que “a política não pode ser uma expressão da vontade pessoal”. “Temos mais pontos em comum do que podia imaginar”, disse ele, que já crítico de Marta. “Descobri nos nossos encontros desta semana que temos visões semelhantes em diversos aspectos da cidade”, disse o vereador, lembrando que a aliança nasce com a experiência de três gestões municipais, em referência às administrações de Marta, José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (PSD).

O vereador ressaltou bandeiras da gestão Marta, como a criação dos Centros Educacionais Unificados (CEUs) e do Bilhete Único, e ressaltou que, com Serra, os projetos da ex-prefeita foram continuados. 

Presença. A convenção teve a presença de representantes do PMDB, como o presidente municipal, José Yunes, e o presidente estadual, o deputado Baleia Rossi, e o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf. 

Pelo PSD, participou do ato o ministro das Comunicações, Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab, um dos principais fiadores da aliança. 

O advogado José Rodrigues Pimentel, que ficará responsável pela tesouraria da campanha, estimou uma campanha de R$ 20 milhões. Ele vai discutir a partilha do Fundo Partidário com o presidente nacional do PMDB, Romero Jucá. “Ainda não sabemos direito o que fazer para arrecadar”, disse. 

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'Não sou tucano e Marta não é PT', diz Matarazzo

Segundo candidato, dobradinha pretende explorar 'legados bem-sucedidos'; em entrevista recente, o vereador chegou a dizer que 'era mais fácil um piano voar' do que ele apoiar a candidatura de Marta

Pedro Venceslau e Valmar Hupsel Filho, O Estado de S. Paulo

27 Julho 2016 | 07h57

Nesta terça-feira, 26, dia em que anunciou oficialmente que aceitou ser candidato a vice da senadora Marta Suplicy (PMDB) na disputa pela Prefeitura de São Paulo, o vereador Andrea Matarazzo (PSD) disse ao Estado que a dobradinha pretende explorar na campanha "três legados bem-sucedidos".

"Essa candidatura tem o legado de três gestões bem-sucedidas. São marcas como o CEU, Bilhete Único e as Amas", disse Matarazzo, referindo-se a programa das gestões de Marta (2001-2004), José Serra (2004-2006), do PSDB, e Gilberto Kassab (2006-2013), do PSD, à frente da Prefeitura.

Questionado sobre a rivalidade histórica entre ele e Marta, que deixou o PT no ano passado, Matarazzo afirmou que São Paulo está acima disso. "O tempo passou, as pessoas amadurecem, inclusive eu. Esta aliança está acima desta permanente guerra entre vermelhos e azuis na cidade. São Paulo está acima disso", disse.

Passado. Matarazzo minimizou as críticas feitas por ele a Marta no passado. "Éramos grupos antagônicos, mas ela saiu do PT e eu do PSDB." Em entrevista recente à Coluna do Estadão, o vereador chegou a dizer que "era mais fácil um piano voar" do que ele apoiar a candidatura de Marta. No dia 28 de abril, Matarazzo escreveu no Twitter a seguinte frase: "Não serei vice da Marta nem de ninguém".

Sobre a possibilidade de contar com apoio de tucanos descontentes com a candidatura do empresário João Doria (PSDB), o vereador desconversou. "Não sou de constranger meus amigos, mas os tucanos de alma apoiarão o que for melhor para a cidade."

Em nota divulgada nesta terça, Matarazzo assume que ele e Marta tiveram "várias diferenças (...) mas descobrimos que podemos dialogar e construir consensos." Segundo ele, a união representa "um novo momento para a cidade". E encerra o texto: "Tempo de união para São Paulo".

Marta não falou com a imprensa nesta terça. Pelo Twitter, a senadora afirmou: "demos um passo importante pela São Paulo que sonhamos".

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