Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

'A minha é só história triste, mano'

Usuário conta experiência de estar em abrigo da Prefeitura de dia e enfrentar o vício ao sair: 'Tem de evitar o primeiro. Se não, fica a noite toda fumando'

Pablo Pereira, de O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2012 | 16h00

O primeiro contato com as pedras de crack ocorreu quando ele tinha 15 anos. Hoje com 21, o desempregado Valdir Cardoso dos Santos vive o drama de ser um adulto não com um projeto de vida produtivo, um sonho de uma vaga no ensino superior ou um trabalho decente. A tarefa dele, que mora na rua no centro de São Paulo e frequenta o espaço de convivência da prefeitura (para viciados e desabrigados), é livrar-se do cachimbo de crack que lhe entortou a vida na adolescência e só lhe rendeu dependência química, abandono, roubo e cadeia.

Nascido em Francisco Morato, na Grande São Paulo, onde vive sua família - mãe, pai, um irmão de 7 anos e uma irmã de 18 -, Valdir perambula pelo bairro do Pari há dois meses. Ele aprendeu a fumar crack com "uns conhecidos, uns parentes" da Freguesia do Ó, zona norte da capital.

Dizendo-se limpo (trêmulo, porém lúcido), o rapaz conta que frequenta o centro de assistência social da Prefeitura de São Paulo, no Bom Retiro, na esperança de abandonar o vício. "Eu já deixei por um ano e sete meses", afirma. "Mas voltei por pura sem-vergonhice", admite, num final de tarde, na rua, diante do Centro de Convivência da Rua Prates. É lá que ele passa o dia tentando enganar a dependência química. Com colegas do centro de apoio, Valdir busca ocupação para a "mente" para fugir da "brisa do crack". "Gosto de jogar pingue-pongue, futebol, assistir televisão", explica ele. "É um lugarzinho da hora de ficar", diz, comentando as horas de permanência na instituição municipal.

Anos e anos de negligência, gestão após gestão de promessas frustradas, a Cracolândia virou a terra de homens e mulheres com cascões de sujeira no rosto e no corpo, escondidos em meio a papelões e cobertores sujos, que raspam a calçada em busca de migalhas que caem dos outros cachimbos. Um lugar marcardo pelo abandono e degradação. No começo do ano, uma polêmica ação da polícia na região retomou o debate sobre aquela área - viciados foram expulsos e o governo prometeu ocupar os quarteirões. Depois de seis meses, a tão propagada solução não apareceu. Quase 72% dos moradores de rua da região central acham que de nada adiantou a operação, de acordo com pesquisa da própria Secretaria Municipal de Assistência Social. Outros 17,2% acreditam que a situação piorou.

A Prefeitura ainda defende que o igualmente polêmico projeto "Nova Luz" vai mudar o panorama - o plano pretende repassar à iniciativa privada a área delimitada por 45 quarteirões na Luz e na Santa Ifigênia. Em troca de obras de recuperação nas ruas e calçadas, empresas poderiam lucrar explorando os imóveis desapropriados ou vendê-los. A Justiça já barrou essa ideia três vezes, sendo que a licitação ainda não foi lançada. Vale lembrar que a dificuldade de transformar a Cracolândia não é exclusividade da atual gestão - 35 intervenções em pontos culturais e turísticos no centro da cidade foram realizados desde 1998, com investimento de R$ 1,2 bilhão. É o equivalente a 13 quilômetros de metrô ou 60 Centros Educacionais Unificados (CEUs). E sem resultado aparente.

Atendimento. Desde janeiro a Prefeitura ampliou o atendimento a usuários de drogas na Cracolândia. Depois do episódio da invasão policial de janeiro, quando houve tumultos na área da Rua Helvétia e agentes de saúde concentraram esforços na atração de interessados em tratamento, 67.164 contatos com usuários foram registrados pela Operação Centro Legal, ação coordenada entre Prefeitura e governo estadual. Houve 4.550 encaminhamentos para tratamento. E 534 internados para desintoxicação.

Ainda assim, dezenas de usuários de crack e outras drogas ilícitas, além do álcool, ocupam as ruas. São constantemente desalojados pela polícia de calçada em calçada no centro. E se espalham pela vizinhança fumando pedras de crack à luz do dia, para o pavor de moradores e comerciantes do entorno. "O clima aqui é de guerra", diz um dono de restaurante que pede anonimato. Ele teve o carro apedrejado à época da operação policial e arcou com prejuízo de quase R$ 10 mil na reforma. "É pressão por todos os lados", declara outro comerciante.

Mordendo os tocos de unha que lhe restam nas mãos, Valdir é um dos dependentes que se alojaram na região e que aceitam fazer parte do grupo que busca amparo. Mas, segundo ele, a recuperação total é muito difícil. Desempregado, sem profissão definida, o fantasma do vício é sua companhia constante. Os fins de semana, segundo o rapaz, são os dias mais difíceis na batalha de quem luta contra a dependência.

Valdir estudou até a 8.ª série e se expressa com vocabulário carregado de gírias comuns entre os viciados ("golinho de cachaça" é pedra de crack, "brisa" é o efeito da droga, "salve" é recado e "mano", o interlocutor). "A minha é só história triste, mano", argumenta. Depois de iniciar o depoimento, no entanto, parece esquecer os temores. E, ao contrário de outros usuários que circulam na região, habituados a pedir dinheiro para dar entrevistas, Valdir nada exige. Sua única preocupação aparente é com o impacto que própria imagem pode causar em casa. "Minha mãe vai me ver aí, mano", justifica, pedindo para não ser fotografado.

Em seguida narra as dificuldades enfrentadas desde que mergulhou no universo das drogas. "É só tomar um golinho da cachaça (fumar o crack) que você não para mais", diz. "Você tem de evitar o primeiro. Se não, fica a noite toda fumando." Antes de retornar ao abrigo, lembra que a droga já o levou a roubar para comprar pedra, e que já foi preso. "Não sei explicar essa brisa do crack, mano. Dá vontade de fumar mais, e mais, e mais. É onde você se estraga."

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