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A mais-valia de Temer

Em entrevista ao Estado, o presidente disse querer que seu mandato seja medido pelo combate ao desemprego. Não poderia ter escolhido termômetro pior

Jose Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2017 | 05h00

Políticos valem pelo que fazem, mas são eleitos pelo que dizem. Não fosse assim, nem Lula nem Doria teriam virado presidente e prefeito, respectivamente. Seus feitos como gestores públicos eram insuficientes para levá-los à vitória quando se elegeram pela primeira vez. Foi a imagem que projetaram, a história que contaram que os sufragou. Com Temer é igual. Chegou ao Planalto pelo que prometeu. Ele sabe disso, mas faz de conta que não.

Em entrevista ao Estado, o presidente disse querer que seu mandato seja medido pelo combate ao desemprego. Não poderia ter escolhido termômetro pior. É fato que Temer pegou a Presidência com o desemprego mais alto da série histórica, mas, desde então, ele já bateu esse recorde oito vezes. Nesses 12 meses, a taxa de desocupação nacional saltou de 10,9% para 13,7%.

Os quase três pontos de diferença entre o pré e o pós Temer se tornam mais dramáticos quando convertidos em pessoas. Foram 3,1 milhões de novos desocupados entre o primeiro trimestre de 2016 e o primeiro trimestre deste ano, chegando a inéditos 14,2 milhões de brasileiros desempregados e que procuram emprego. 

Nunca - desde que o IBGE passou, no começo de 2012, a medir a taxa nacional de ocupação em médias trimestrais - tão poucas pessoas estiveram empregadas no Brasil. Há 1,2 milhão de ocupados com carteira assinada a menos do que quando Temer assumiu a Presidência - com as nefastas implicações que isso tem sobre o déficit público: quanto menos empregados, menos contribuintes há para o Fisco e a Previdência.

O presidente repete as projeções da equipe econômica de que o desemprego deve começar a cair no último trimestre deste ano. Pode ser. O desemprego no Brasil costuma acelerar no começo do ano e desacelerar no seu fim. Mas isso significa que o mercado de trabalho nos primeiros meses de 2018 terá pressões sazonais para estar pior do que no final de 2017 - o que não daria a Temer motivo para comemorar seus eventuais dois anos de governo.

O presidente, de motu proprio, elegeu o indicador que demorará mais tempo para entusiasmar alguém - se é que vai. Por quê? 

O desemprego se correlaciona à impopularidade presidencial. E é dos políticos querer ser querido, não só por vaidade. Como Temer diz na entrevista, "se estiver mal (de popularidade, na eleição de 2018), ninguém vai querer se aproximar. Não é assim a vida?". É. Sarney virou palavrão em 1989. FHC foi esquecido em 2002.

Tivesse Temer escolhido os reais motivos que o levaram à Presidência como régua para medir seu sucesso, melhores chances teria de alcançá-lo. Foi a promessa de reformas que estimulou o empresariado a caminhar rumo à "Ponte para o futuro" - o equivalente peemedebista à "Carta ao povo brasileiro" de Lula em 2002. Sabe-se que Temer sabe disso porque ele próprio disse. 

Almoçando em Nova York com empresários gringos do Conselho das Américas, em setembro de 2016, Temer foi didático: "Sugerimos ao governo (Dilma) que adotasse as teses que nós apontávamos naquele documento chamado "Ponte para o futuro". Como isso não deu certo, não houve adoção, instaurou-se o processo que culminou com a minha efetivação como presidente da República".

O processo continua. Redução de direitos trabalhistas e mudanças que retardam a aposentadoria - prometidos na "Ponte" - viraram projetos de reforma que Temer, presidente, enviou ao Congresso. Podem reformar mais ou menos, mas, cedo ou tarde, passarão. Por que, então, ele não prefere ser avaliado por cumprir suas promessas de campanha?

Talvez porque sua intuição lhe diga, no silêncio noturno do Jaburu, que políticos valem pelo que fazem, não pelo que dizem.

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