DANIEL TEIXEIRA | ESTADAO CONTEUDO
DANIEL TEIXEIRA | ESTADAO CONTEUDO

A luta continua no acampamento da Av. Paulista

Mesmo depois de o Senado confirmar o afastamento temporário da presidente Dilma Rousseff, os acampados da Avenida Paulista, em São Paulo, não desmontaram suas barracas. Há quase 70 dias na vizinhança da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o grupo preferiu atualizar sua pauta de reivindicações – e agora defender também o “Fora, Temer”. Ou quase isso.

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2016 | 10h00

O movimento que fincou bandeira no dia 16 de março, data em que Dilma nomeou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como ministro-chefe da Casa Civil, não é ideologicamente classificável. Entre os participantes é possível achar direitistas, monarquistas, militaristas, internacionalistas, anarquistas, centro-esquerd istas, apolíticos, distraídos e desempregados. Essa pluralidade faz com que o “Fora, Temer” ainda não seja abraçado por todos. “Não entendo nada de política. Não sei de Temer ou de Dilma, gosto mesmo é de aparecer nas fotos”, disse a maratonista Ana Luisa dos Anjos Garcia, de 53 anos, apelidada pelos companheiros de “Animal”.

Uma das lideranças é a estudante de Direito e ex-cabeleireira Bibiana Oliveira, de 21 anos. Bibi vendeu seu salão de beleza em Santa Maria (RS) para se juntar aos protestos contra o governo petista. Ela diz que a salada de opiniões não será empecilho para que o acampamento se transforme em uma ONG, que já foi batizada de ‘Resistência Paulista’ e vai tratar de divulgar o passado dos candidatos a qualquer cargo público. “O que nos une não é uma ideologia partidária, mas a vontade de ver um País mais justo”.

Como muitos já se perguntaram, convém saber se “a vontade de ver um País mais justo” está sendo bancada por alguém. “Não. Nunca. Vivemos de doações espontâneas. Bares e restaurantes da região nos ajudam com sobras, a geladeira nos foi dada por uma apoiadora, quando precisamos de dinheiro, visto minha camiseta de ‘Musa de Direita’ e vou pedir no farol”, relata Bibi. Em relação à Fiesp, ela conta que se tratou apenas de apoio pontual. “Ela apenas liberou os banheiros e deixou que a gente se instalasse na frente do prédio. Hoje, nem isso. Tanto que nos afastamos um pouco da Fiesp.” Esse afastamento seria mais do que físico. Bibi assiste com desconfiança à adesão do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, ao governo de Michel Temer e reclama da amizade da entidade patronal com movimentos como MBL e #NasRuas. “Nós começamos essa luta. Esses grupos estão tentando tirar uma casquinha dos nossos esforços.”

Turno da manhã. O dia no acampamento começa sem o som idílico de um galo, mas com o barulho dos trens do metrô. Os horários de café da manhã, almoço e jantar estão afixados na cozinha. Quem passa a noite em claro, fazendo a segurança das barracas, tem prioridade. Atualmente, menos de dez pessoas dormem no local – há mais barracas do que ocupantes. O cardápio do almoço é salsicha e massa – que pode se transformar em salsicha e arroz. Um dos capitães da cozinha é o agricultor Danilo Wesley Fonseca, de 28 anos, que saiu de Pouso Alegre (MG) para se juntar ao grupo. Apesar de ter reservado quarto em um hotel, diz ter se estabelecido na Avenida Paulista. “Essa experiência está mudando minha vida e vai mudar o País.” Para ele, “novo na política” é o senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), na vida pública há quase 30 anos.

O acampamento virou a vida do motoboy Rodrigo Ikezili, de 33 anos, do avesso. Empolgado pela política, decidiu dar baixa na carteira de trabalho e se dedicar em tempo integral à luta. Após muitas noites na avenida, tentou voltar para casa e rever a mulher e filha. Ao chegar em sua casa, encontrou duas malas do lado de fora. “Minha mulher me botou pra fora, quis o divórcio. Tentei convencê-la dizendo que não estava fazendo aquilo por mim, mas pelo futuro da nossa filha. Ficamos afastados duas semanas, depois ela me chamou de volta. Hoje, ela aceita melhor. Ela mantém as contas de casa em dia... E eu continuo aqui...”

Um personagem bastante comum naquele espaço é o desempregado. O acampamento tem cooptado pessoas que procuram colocação profissional e precisam de teto (ou lona) para passar uns dias – bem como almoço grátis. Esse é o caso de Geovani Viana Alves, de 25 anos, que veio de Mossoró (RN). Depois de três dias de viagem, e sem lugar para dormir, Alves se viu na condição de sem-teto, pronto para repousar em algum canto sujo da cidade. “Aí o pessoal do acampamento me viu e perguntou se eu queria ficar. Eles viraram a minha família em São Paulo. Como e durmo aqui. Além disso, saio todos os dias para procurar emprego de motorista.” Alves garante que está aproveitando a estada para se formar politicamente. “Antes eu não sabia de nada.”

Militares. Não é raro achar no acampamento quem defende uma intervenção militar como solução para o País. David Alexander, de 20 anos, deixou a casa da avó para se juntar ao grupo. O jovem diz que “apenas os militares podem pôr fim ao caos social que reina no Brasil”. Infelizmente, Alexander não poderá permanecer no local, pois, segundo ele mesmo, tem viagem marcada para Londres. Também entusiasta dos militares é a ex-proprietária de um buffet de festas, Nina Costa, de 19. Segundo ela, o Exército devia assumir o controle do País pelo tempo que fosse necessário para reorganizá-lo. “Infelizmente, minha família não entende minha posição. Minha mãe cortou meu cartão de crédito. Gastei quando resolvi me juntar aos manifestantes.”

Simpatizante de soluções radicais, o aposentado Vladmir Vairo, de 63 anos, visita regularmente o acampamento. Ele considera o impeachment de Dilma uma “pequena vitória” e mede o declínio do País por meio de sua dificuldade em manter a coleção de relógios de parede. “Sou viúvo e meu hobby é colecionar relógios. A manutenção dos meus relógios está cada vez mais cara”.

Quando a noite cai. Tem violão. Quem se reveza no instrumento costuma tocar Legião Urbana, Raul Seixas e música gospel. Não é exatamente um ambiente festeiro – já que o consumo de bebidas alcoólicas é proibido e pelo menos três acampados foram expulsos por isso. O lugar fica menos à vontade nesse horário, principalmente porque existe o temor de ‘ataques comunistas’. Segundo os acampados, xingamentos e até ataques físicos já foram feitos contra a chamada ‘Resistência’.

Após as 19 horas, havia ali um Papai Noel profissional que há mais de 20 anos entrega brinquedos para crianças carentes e diz estar ali por elas. “Não entendo nada de política, mas estou fazendo mais do que essas pessoas que não tiram a bunda da cadeira”, diz Rogério Bocchino, de 62 anos, que na ocasião comemorava o fim do Ministério da Cultura. “Além de Papai Noel, sou artista plástico e poeta, nunca vi um tostão do ministério, não servia pra nada.”

No fim, a maratonista Ana Luísa dos Santos revelou ter uma história de vida triste. Diz ter sido abandonada pela mãe e passado anos na Febem (atual Fundação Casa). Mas, para Ana, tudo o que viveu vai valer a pena se, com toda essa divulgação, ela for convidada para segurar a Tocha Olímpica. “Esse é o meu objetivo aqui. Segurar a tocha.”. Assim, os acampados da Paulista pretendem seguir firmes, defendendo o fim da corrupção, gritando “Fora, Dilma”, “Fora, Temer” e lutando contra seus próprio moinhos de vento.

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