A lição do almirante Álvaro Alberto para o astronauta de Bolsonaro

Primeiro presidente do CNPQ, o almirante não teve dúvida em se demitir diante da crise que impediu o País de ter centrífugas alemãs para urânio nos anos 1950

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2021 | 10h00

Caro leitor,

O que podem esperar os militares do governo Jair Bolsonaro? O ministro da Ciência e Tecnologia, o astronauta Marcos Pontes, parece achar que é mais importante manter sua cadeira na Esplanada do que defender a tradição iniciada pelo almirante Álvaro Alberto da Mota e Silva, descrita pelo professor Manuel Domingos Neto em seu artigo O Militar Surtou!, publicado pelo Estadão, em 25 de maio de 2020. Domingos Neto foi presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED) e vice-presidente do CNPQ.

Bolsonaro gosta de falar de nióbio e grafeno. Devia aprender a importância do urânio e da monazita. Era 1952 quando o Conselho de Segurança Nacional tomou conhecimento do acordo que implicava o fornecimento pelo Brasil, pelos próximos três anos, de 7,5 mil toneladas de monazita, além de uma quantidade igual de minerais raros, como os sais de cério. Havia ainda contrabando de grande quantidade de areias monazíticas de Guarapari, no Espírito Santo. Os interesses nacionais eram vilipendiados pelo crime organizado, o que levou o governo federal a disciplinar a farra em 3 de julho de 1952.

Só no ano seguinte seria instalada a indústria nuclear no Brasil. Foi Álvaro Alberto da Mota e Silva quem buscou os primeiros contatos com os alemães diante da resistência americana ao programa nuclear brasileiro, uma ação que continuaria durante mais de três décadas, com administrações democratas e republicanas agindo contra os interesses nacionais, como mostram os documentos recentemente liberados pelo Departamento de Estado americano sobre o acordo nuclear com a Alemanha feito ainda no governo de Ernesto Geisel

O CNPQ foi o instrumento do desenvolvimento científico do País durante mais de 70 anos, até que Bolsonaro e seus apoiadores surgissem em Brasília para destruir o que o país levou décadas para erguer. Ao decidir retirar R$ 600 milhões da pesquisa científica para repassar um terço desse valor para o Ministério do Desenvolvimento Regional - centro do tratoraço -, Bolsonaro mostra que nada está acima de sua reeleição e da campanha para Rogério Marinho tentar obter o que não conseguiu na última eleição: votos suficientes para se manter em Brasília.

É para o ministério de Marinho que R$ 200 milhões da verba para pesquisa de vacinas e outras inovações importantes para a ciência do País vão. São recursos que o ministro Paulo Guedes, da Economia, resolveu direcionar na semana passada. Nada é mais importante para esse governo do que a reeleição do capitão: não importa se para tanto é necessário manter a ilusão da cloroquina em meio a 600 mil mortes ou atacar a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) em razão da defesa da distribuição de absorventes femininos. Quem acompanhou os grupos de WhatsApp bolsonaristas na semana viu que essa turma não tem limites.

O ministro Pontes afirmou que teve vontade de pedir demissão ao saber dos cortes de verbas para pesquisa. Por que não o fez? Por que vender travesseiros é mais importante do que defender a ciência brasileira (que permitiu ao ministro se tornar uma celebridade para ser cooptado pelo bolsonarismo)? Ou para defender o uso da nitazoxanida (Annita) contra a covid-19? Pontes parece fora de órbita. Mas é o astronauta que se prestou a anunciar o vermífugo contra a covid e também uma vacina apoiada pelo governo federal no mesmo dia em que o Instituto Butantan revelava o plano da Butanvac. É mais importante o marketing para se opor ao governador João Doria do que agir para garantir verbas à vacina "concorrente" do governo paulista?

O ministro nunca explicou seu papel na estratégia da busca frenética de remédios milagrosos do governo para manter a economia funcionando a fim de trocar vidas por votos nas urnas de 2022. Também nunca falou sobre a defesa de vermífugos contra a covid-19. Nem mesmo se desculpou por colocar sua imagem de homem da pesquisa à disposição do obscurantismo do governo. A crítica à ciência sem limites produziu clássicos do cinema americano, como a figura do cientista que não consegue controlar sua mão em Doctor Strangelove

Pontes deve decidir se quer assistir aos efeitos da política de um governo que considera mais importante agradar ao Centrão do que ao futuro do País. Em 2023, o astronauta não terá mais travesseiro onde pousar sua cabeça diante do resultado do corte de verba reservada à Ciência e à Tecnologia do Brasil.  Único representante da Força Aérea no ministério de Bolsonaro, Pontes é mais um daqueles ministros biombos, como uma vez foram Nelson Teich, Regina Duarte e Sérgio Moro. Emprestam seus nomes para dar legitimidade a tudo o que é injustificável no governo. 

 

Em 1954, o almirante Álvaro Alberto buscou na Alemanha ultracentrífugas para enriquecer urânio. O plano, descoberto pelos americanos que então ocupavam aquele país, ficou congelado até 1956, quando acabou a ocupação da Alemanha Federal. Por dois anos, os americanos impediram o embarque dos aparelhos para o Brasil. O almirante nunca desistiu de fazer da soberania nacional uma realidade diante de pessoas que mandavam suspender operações de vigilância contra agentes de países estrangeiros no País. No meio da polêmica, Álvaro Alberto se demitiu do CNPQ. 

 

Reconhecer o que se passa no CNPQ não tem relação com a polarização que lança contra o governo críticas mesmo imerecidas. Ao não se rebelar contra os cortes no sistema de bolsas na pesquisa científica, Pontes deixa de fazer aquilo que todo militar tem o dever de fazer diante de seu superior: a discordância leal, aquela que procura auxiliar o comandante sem a qual ninguém é capaz de cumprir seu dever. O que está em jogo é saber se o País tem no ministro um novo almirante e, se no futuro, o Brasil terá novos astronautas ou se a Nação vai se contentar em produzir apenas vendedores de travesseiros.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

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