Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

A lição de Erasmo Dias para o governo Bolsonaro

Neste governo, vale a lei de Homer Simpson: 'A culpa é minha, eu a coloco em quem eu quiser'

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2019 | 10h33

Caro leitor,

Erasmo Dias era conhecido por vociferar, ainda que não estivesse brigando com ninguém. João Baptista Figueiredo, o presidente que preferia o cheiro do estábulo ao das multidões, o admirava. Carinhosamente o chamava de “terrorista”. Erasmo não tinha papas na língua para defender o regime e enfrentar os comunistas. Mas até ele sabia que o poder tinha limites. Para mandar era preciso saber obedecer.

Em 1976, três dirigentes do PCdoB foram mortos por policiais e militares do DOI (Destacamento de Operações de Informações) depois que os agentes estouraram o aparelho onde a cúpula comunista se reunia em São Paulo. Pedro Pomar e Ângelo Arroyo morreram ali. João Franco Drummond, no interior do DOI. Mas Geisel, o presidente de então, proibira mortes nas quartéis. Erasmo, que era secretário da Segurança, contou ao Estado que deu um jeito para cumprir a ordem. Levou o corpo para fora e simulou uma queda distante do destacamento.

O tonitruante Erasmo não queria barulho em sua área. Mas havia gente que não se importava com isso e desejava mostrar serviço. “A melhor coisa que existe na guerra é informação negativa. Informação negativa é a coisa mais bacana que existe. Querer criar informação positiva onde não tem nada é a maior estupidez que pode existir”, disse Erasmo mais de 30 anos depois das mortes. Muita gente sabia que o PCdoB se reunia em São Paulo. O partido estava arruinado, depois da derrota no Araguaia. Não oferecia risco ou perigo, mas...

... Sempre tem alguém criando barulho. Depois, é fácil culpar os outros, segundo a lei de Homer Simpson: “A culpa é minha, eu a coloco em quem eu quiser”. O presidente Jair Bolsonaro começou sua carreira política quando a de Erasmo se encaminhava para o declínio. Na semana passada, o relatório da Reforma da Previdência fora apresentado na Câmara, e o governo parecia ter conseguido se unir em torno da defesa do juiz Sérgio Moro, ameaçado pela divulgação de conversas com o procurador Deltan Dallagnol. O céu parecia tranquilo. Parecia.

Em menos de três dias, a ala militar do governo sofreria mais baixas entre seus oficiais generais do que a Força Expedicionária Brasileira (FEB) em toda a 2.ª Guerra Mundial. De uma baciada, três – Santos Cruz (Secretaria de Governo), Franklimberg Ribeiro de Freitas (Funai) e Juarez Aparecido de Paula Cunha (Correios) foram abatidos. Nenhum deles foi alvejado, como Moro, pelo fogo inimigo. Todos caíram diante das granadas do artilheiro Bolsonaro, o presidente e comandante do governo.

Há um mês, o general Juarez fora advertido pelo presidente de que a empresa que comandava seria privatizada. E o que ele fez? Esqueceu a lição de Erasmo e foi defender “o inimigo”. Manifestou-se contra a privatização no Congresso. A esquerda regozijou-se. O chefe que o nomeou, decidiu desnomeá-lo. O artilheiro Juarez não soube obedecer? Juarez é um quatro estrelas da mesma turma de Academia (1975) do também artilheiro Hamilton Mourão Filho, o vice-presidente, aquele a quem Carlos Bolsonaro (..._ _ _...), quando quer seguir a Lei de Homer, escolhe para pôr a culpa se algo vai mal no governo.

Se um general se havia transformado em sindicalista, Bolsonaro descobriu que havia nomeado outro que se revelara amigo dos índios. Mas o tempo do marechal Rondon passara. O patrono das Comunicações parece que não teria lugar no governo que tem Nabhan Garcia na Agricultura. E assim foi expelido Franklinberg, um infante da turma de 1979, a mesma da general Luiz Eduardo Ramos Baptista Pereira, que deixou o Comando Militar do Sudeste (CMSE) para substituir o general Santos Cruz na Secretaria de Governo.

Mas, se os outros dois generais foram apeados de suas cadeiras porque se chocaram com a visão de mundo do chefe, o que Santos Cruz fez para ser humilhado pela rede bolsonarista da internet e demitido pelo presidente, “que na luta se impõe pela metralha”?  Santos Cruz segurou o dinheiro da secretaria de Comunicação e brigou com quem não devia: Olavo de Carvalho.

No governo, onde a lei que vale é a do Homer Simpson, colocaram em Santos Cruz todas as culpas imaginárias e reais. Olavo o transformou em uma Geni e não adiantou Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, defendê-lo por nota escrita ou tirar foto ao seu lado. O enxovalho e a humilhação não renderam a Santos Cruz mais do que o desagravo de uns poucos. O silêncio de muitos só prova que, diante de quem gosta de barulho, o comportamento de Erasmo é a regra. Para cumprir a ordem, basta pôr o cadáver na rua.

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