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A jogada do Centrão

Ciro Gomes age como um escorpião de natureza autofágica: pica a si mesmo

João Domingos, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2018 | 03h00

O maior fato desta fase da campanha à Presidência da República foi a decisão de um grupo de partidos do centro político de se aliar a Geraldo Alckmin, do PSDB. Mesmo que oficialmente o acordo só vá ser anunciado na semana que vem, ele já provocou inúmeros efeitos. De uma hora para outra, Ciro Gomes, do PDT, que parecia ter construído sua viabilidade eleitoral e as condições objetivas para chegar ao segundo turno, visto que as negociações dele com o Centrão estavam em fase adiantada, viu o chão abrir-se a seus pés; e Alckmin, que parecia fadado a passar o resto da campanha patinando num sofrível índice de aceitação do eleitorado, pulou para o status de competitivo, pois, com a adesão dos partidos, terá cerca de quatro minutos e meio de tempo de propaganda eleitoral em cada bloco de 12 minutos e meio.

Alguém já lembrou que em 1989 o deputado Ulysses Guimarães, do PMDB, tinha um imenso tempo de TV e não passou de 4,73% dos votos. A situação era diferente. Ulysses fez sua campanha baseado na Assembleia Constituinte, da qual fora presidente, e que produzira a Constituição cidadã. A Constituição tornou-se importantíssima para a garantia das liberdades do estado democrático de direito que se instalava. Vencida aquela fase, no entanto, o eleitor estava preocupado mesmo era com a inflação, que chegava, mês a mês, a 30%, 35%, e acima dos 40% em novembro, quando foi realizada a eleição. Enquanto Ulysses romantizava seus feitos, o PMDB o traía com Fernando Collor, que fazia uma campanha milionária e prometia acabar com a corrupção e uma caça sem tréguas aos marajás do serviço público. Lula e Leonel Brizola disputavam o segundo lugar prometendo um Brasil mais igual. 

Voltemos ao impacto da adesão dos partidos do Centrão a Alckmin. Em primeiro lugar, ela dificulta muito a candidatura de Ciro Gomes e de Jair Bolsonaro (PSL). Tira-lhe, além do tempo de TV, a bandeira com a qual pretendia pedir votos, a de um candidato que, se eleito, teria a seu lado a centro-esquerda e a centro-direita, o retrato de um presidente conciliador, disposto a governar para todos os setores da sociedade. Mas Ciro se perdeu em suas próprias atitudes: xingou uma integrante do Ministério Público e ainda tentou acabar com o acordo comercial entre a Boeing e a Embraer. Raciocinaram os partidos do Centrão: “Se, na condição de pré-candidato, ele é capaz de criar insegurança tanto na relação entre os poderes quanto nas questões de mercado, o que esperar dele, se chegar à Presidência?” Isso depois de prometer ficar calado. Mas Ciro age como um escorpião de natureza autofágica: pica a si mesmo. Foi assim em 2002, quando disputou a Presidência pelo PPS. Ao vivo, num programa de rádio na Bahia, chamou de “burro” um eleitor que ligou para dizer que ele era incoerente por ter se aliado ao então senador Antonio Carlos Magalhães.

A ida dos partidos para os braços de Alckmin deixa Jair Bolsonaro também sem tempo de TV. O deputado, que aparece em primeiro lugar nas pesquisas sobre intenção de voto nos cenários sem Lula, está parado há meses na mesma posição. Se não melhorar, e se Lula conseguir transferir para o candidato do PT os votos que teria, Bolsonaro corre o risco de não passar para o segundo turno. 

Alckmin ganhou. Mas quem mais ganhou com todo o movimento foi o Centrão. Nas negociações estão a presidência da Câmara para o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), o tradicional espaço para os partidos nos ministérios e na administração federal, além de reviravoltas nas campanhas para os governos estaduais e na montagem das chapas para o Senado. O Centrão soube esperar a melhor hora para se apresentar.

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