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A inocente útil

Justiça seja feita aos ministros que andaram falando mais e menos corretamente do que deveriam, foi o próprio Michel Temer quem disse em sua primeira reunião ministerial, logo depois de aprovado o impeachment de Dilma, que – observados os interesses do governo – todos teriam autonomia para agir e liberdade para se expressar. 

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2016 | 03h00

Na ocasião, o interesse contido na declaração parece ter sido o de se diferenciar do estilo centralizador (para dizer de forma amena) da antecessora. Temer falou como quem dissesse “acabou a era do terror, daqui em diante teremos uma administração democrática”. Isso se refletiu de imediato no acesso da imprensa aos titulares das pastas, bem como na circulação de informações e trânsito no ambiente do Palácio do Planalto.

Do ponto de vista do lado de cá do balcão, tudo melhorou. Já do lado de lá houve ruídos. Em alguns casos, estrondos. Percalços que o presidente acredita possam ser atribuídos à falta de uma política de comunicação bem definida e corrigidos em boa medida pela existência de um porta-voz responsável pela transmissão de informações oficiais. 

De onde foram consultados dois jornalistas de prestígio e competência reconhecidos – Eduardo Oinegue e Heraldo Pereira – que, com aguçado senso de propriedade, declinaram do convite para a função. A solução foi escolher um diplomata, por definição um servidor do Estado. 

Alexandre Parola e outros colegas de Itamaraty já haviam ocupado o cargo no governo Fernando Henrique. Temer quis importar o modelo, bem sucedido é verdade, mas cujo êxito relaciona-se apenas com os comunicados de caráter estritamente formal.

O porta-voz nem estratégias de comunicação – por mais competentes que sejam ambos – têm o condão de resolver os problemas com os quais se depara o governo: desacertos em série decorrentes principalmente da ordem do chefe que (acertadamente) garantiu autonomia e liberdade aos auxiliares. Ocorre, porém, que não levou em conta a capacidade de cada um de se garantir no desempenho das respectivas funções no tocante aos interesses primordiais do governo que, diga-se, até agora não foram claramente definidos. 

Ademais, uma boa política de propaganda não assegura resultados. A questão central é a qualidade do produto. Luiz Inácio da Silva foi um mestre da comunicação sem que a resultante correspondesse. Dilma Rousseff foi sempre um desastre nessa seara e, no entanto, conseguiu se eleger e reeleger. 

O PT comunicou-se bem na teoria do “golpe”, mas não conseguiu transformar essa inteiração comunicativa em votos, conforme indicam as pesquisas eleitorais deste domingo. De onde se conclui que o governo Michel Temer chegará ao melhor ou ao pior termo não por se comunicar, mas por produzir melhores ou piores resultados para a vida de milhões de cidadãos aflitos com o dia de hoje e principalmente com a perspectiva do amanhã.

Fraude física. O aumento ou redução do uso do caixa 2 nas eleições são questões a serem vistas mais à frente. O que temos de concreto desde já são as fraudes nas doações de pessoas físicas, tema que vai adquirir grande relevância na semana que vem, uma vez examinados os resultados políticos.

O Tribunal Superior Eleitoral e o Tribunal de Contas da União cruzaram dados e encontraram 93 mil casos de possíveis fraudes em doações da ordem de R$ 300 milhões por parte de pessoas que não tinham renda para tal.

A suspeita, bastante consistente, é a de que partidos tenham usado CPFs de cidadãos livres de quaisquer suspeitas para acobertar doações proibidas de pessoas jurídicas. Os responsáveis poderão ter cassados os registros de candidaturas.

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