''A incapacidade de gestão de meu adversário será mostrada''

ENTREVISTA - Marta Suplicy: candidata do PT

Vera Rosa e Fausto Macedo, O Estadao de S.Paulo

06 de outubro de 2008 | 00h00

Vestida de vermelho e à frente de um enorme cartaz com o slogan "A esperança vai vencer de novo", a candidata do PT à Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy, chamou ontem para a briga o prefeito Gilberto Kassab (DEM), seu rival no segundo turno. Mais: disse que vai comparar "governos, trajetórias e biografias" nessa nova rodada da disputa. "A incapacidade de gestão e de planejamento de meu adversário será mostrada", disse Marta. "Vou enfrentá-lo com muitas armas boas. Uma coisa é governar na adversidade e outra na bonança, com as contas em dia."Embora surpreendida com a disparada de Kassab, que ultrapassou o PT na primeira etapa da corrida logo na abertura das urnas, Marta procurou demonstrar tranqüilidade quando chegou às 22h10 de ontem a um hotel do centro de São Paulo para conceder sua primeira entrevista coletiva após a votação. Não passou recibo.Sorridente diante do novo mote de sua campanha, inspirado no famoso "A esperança venceu o medo", que embalou a primeira vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, a candidata do PT preferiu destacar a parceria com o presidente."Eu e o presidente Lula temos projetos iguais. Não temos um acordo eleitoreiro", afirmou a candidata, dando nova estocada em Kassab, que em 2004 se aliou a José Serra (PSDB), hoje governador, sem ter qualquer proximidade com o tucano.Mesmo com a artilharia dirigida a Kassab, Marta disse que também quer o voto dos eleitores do DEM. Depois, de olho na adesão dos tucanos descontentes - que se sentem traídos por Serra e estão furiosos com Kassab -, a petista elogiou o candidato derrotado do PSDB, Geraldo Alckmin. "Eu elogio a postura, a elegância ética do governador Alckmin", destacou. "Acredito que ele conseguiu ter uma dignidade, que eu respeito, na adversidade que ele viveu."Antes da entrevista coletiva, Marta fez um pronunciamento no qual agradeceu o apoio dos paulistanos, de Lula, das centrais sindicais e dos aliados. "Temos chance de fazer uma campanha belíssima e ganhar essa eleição", disse. Na tentativa de demonstrar otimismo e esconder a preocupação de seu comitê - que planejava chegar ao segundo turno com o PT na dianteira -, Marta encerrou o discurso com os punhos cerrados e um grito de guerra. "Yes!", exclamou.Qual sua estratégia para obter a transferência de votos dos descontentes do PSDB?Há uma estratégia para os eleitores do PSDB, do PPS, do PP, do PV, para todos os eleitores, inclusive os do DEM. Nós vamos buscar cada eleitor. Todo eleitor é eleitor a ser conquistado com as nossas propostas. O eleitor vai ter que fazer sua escolha, para onde ele quer que caminhe a cidade. Queremos que essa cidade caminhe para a inclusão social, que seja alavancada para um futuro melhor e que tenha parceria com o nosso presidente Lula. Temos projetos iguais, não temos um acordo eleitoreiro. Temos um projeto de vida nas horas boas e nas horas duras. Temos um projeto partidário de alavancar esse Brasil e a cidade de São Paulo, que é a matriz, a força do País. Meu compromisso é me dedicar dia e noite para que a cidade possa ter cada vez mais empregos.A sra. comparou gestões e biografias no primeiro turno e Kassab subiu. Será eficiente essa mesma estratégia na segunda etapa?Eu tenho agora um adversário e vou enfrentar esse adversário com muito boas armas. Fui prefeita em momento muito adverso, com conquistas fantásticas. Eu e o presidente Lula queremos a mesma coisa para o nosso povo. Mas quatro anos foram perdidos. Na TV, agora, os tempos são iguais. Vamos poder mostrar a fotografia do CEU Formosa, que ele (Kassab) diz que entregou, mas que está la na terraplenagem. Não fizemos para valer nada de comparação. Eu vi que tinha desafios. Fizemos uma campanha propositiva. Nessa etapa vamos comparar, além de cada detalhe das gestões, trajetórias políticas. Para a cidade de São Paulo, para os eleitores dessa cidade, trajetória política conta. E conta muito. Vamos comparar as gestões. Eu trabalhei como prefeita, peguei a cidade devastada por um bando de gafanhotos. E quem eram? Eram Pitta (Celso Pitta, prefeito que a antecedeu)e Kassab, que foi secretário de Planejamento. Foi entregue a mim uma cidade com uma dívida gigantesca, um caos e um abandono absoluto. Conseguimos tirar o transporte do caos e chegamos ao bilhete único. Criamos os CEUs, um grande instrumento de inclusão social. Criamos os telecentros nessa periferia e o programa de renda mínima, marcas da nossa gestão. Fora as parcerias que fizemos. Quando se tem uma cidade falida, é preciso buscar parcerias.De que forma?Fizemos programas sociais com R$ 10 bilhões a menos. No centro da cidade, que tinha R$ 100 milhões do BID, em vez de continuarem os projetos alinhavados, resolveram mexer na Cracolândia, que continua igualzinha. E pagam multa pelo empréstimo do BID. Ele (Kassab) fez 50% a menos do que nós fizemos, em todos os quesitos.A sra. vai comparar gestões?A incapacidade de gestão, a incapacidade de planejamento vai ser comparada. Uma coisa é você governar na adversidade que eu governei e com o Brasil na maior dificuldade dos dois últimos anos de Fernando Henrique e dos dois primeiros anos de Lula. Outra coisa é governar nesse país crescendo e com a cidade organizada que eu deixei, com as contas em dia, apesar de falarem o contrário, com dinheiro em caixa. Terminaram o primeiro ano com mais de R$ 2 bilhões e meio de superávit deixado no banco em vez de fazer corredor nessa cidade. É na adversidade que se avalia quem tem capacidade de gestão.O que a sra. fez no seu governo que Kassab não fez?Eu fiz 100 quilômetros de corredor de ônibus e deixei 200 planejados. Foram feitos (na gestão Kassab) 7 quilômetros de fura-fila. Por isso nos encontramos nesse desespero de trânsito e recursos que não foram utilizados. Vamos comparar as gestões, os CEUs estão aí. (Kassab) falou que ia fazer 24, eu deixei 24 licitados, contratados, com preço fechado. Podia ter começado no primeiro dia. E vamos mais, vamos falar do futuro. Nós criamos do nada, criamos do caos, conseguimos superar as dificuldades. O que foi feito de novo (na gestão Kassab) que tenha mudado a vida das pessoas? O transporte melhorou? Não. Educação melhorou? Não. Pobreza? Não. Poluição? Não. É isso que vamos ter que ver. Não teve uma proposta que fiz que não copiaram no dia seguinte.Qual a sua expectativa quanto ao presidente Lula na sua campanha, já que o governador José Serra deve entrar de vez na campanha de Kassab?As parcerias acontecem quando você tem projetos semelhantes. E projetos semelhantes com o Lula temos nós. O presidente se mostrou disposto a entrar na campanha em todos os momentos que achássemos necessário. Estamos conversando para saber a hora que ele entra. Ele vai entrar evidentemente.Lula vai fazer a diferença com relação a Serra na campanha?O maior líder brasileiro se chama Luiz Inácio Lula da Silva. Quiçá o maior líder que o Brasil já teve. É claro que faz diferença.A sra. quer Geraldo Alckmin no seu palanque?Olha, eu elogio a postura, a elegância ética do governador Geraldo Alckmin. Acredito que ele conseguiu ter uma dignidade que eu respeito na adversidade que ele viveu. Agora a posição dele é quem vai decidir.A sra. liderava todas as pesquisas até a última hora. A ascensão de Kassab a decepcionou?Eu tinha clareza que eu ia para o segundo turno. E também que vou vencer.Como a sra. vai combater a rejeição bastante alta e o que vai fazer para superar o patamar de 35%, que é a média de votos do PT em São Paulo?O que eu tenho sentido na rua é um carinho que eu nunca tive, em nenhuma eleição. Sinto um acolhimento por parte da população muito grande. E segundo turno é segundo turno.O calcanhar-de-aquiles do PT em São Paulo tem sido a classe média. Como a senhora pretende conquistar esse setor?Eu tenho certeza de que a classe média tem a sensibilidade de perceber que, com a gente qualificando, levando emprego para a periferia e condição digna para as pessoas, toda a cidade se beneficia. Na hora que você ajuda o mais carente dessa cidade, você está ajudando a classe média. Aquele empregado que trabalha na casa de pessoas da classe média vai produzir mais, vai ter mais qualidade de vida, vai poder ter uma condução decente. Todos se beneficiam. Eu tenho clareza disso, trabalhei para isso. E acredito que o nosso presidente faz exatamente isso no Brasil. Lula trabalha para o Brasil todo, mas com olhar especial para os que mais precisam. Não podemos ter uma cidade, no século 21, com a distribuição de renda que temos hoje. Quem é: Marta SuplicyPsicóloga e psicanalista, a paulistana foi eleita prefeita de São Paulo em 2000. Em 2004, não conseguiu se reeleger - perdeu paraJosé SerraOcupou o Ministério do Turismo de março de 2007 até junho deste anoEleita deputada federal em 1994, destacou-se pelo projeto de parceria civil entre pessoas do mesmo sexoESTRATÉGIA: "Na hora que você ajuda o mais carente dessa cidade, você está ajudando a classe média"IDENTIDADE: "Eu e o presidente Lula temos projetos iguais. Não temos um acordo eleitoreiro"PLÁGIO: "Não teve uma proposta que fiz que não copiaram no dia seguinte"

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